Em um momento em que o rock alternativo brasileiro se reorganiza fora das fórmulas tradicionais, nasce o AlterEgo — um selo criado por artistas para artistas, pensado não apenas como uma estrutura de lançamento, mas como um território de encontro, experimentação, circulação e registro de uma nova cena independente.
Idealizado pelos integrantes da banda quedalivre, ao lado de uma equipe técnica ampliada, o AlterEgo já reúne mais de 25 bandas de diferentes estados do Brasil, conectadas por uma ética DIY, pela recusa ao encaixe fácil no mercado e por uma pesquisa sonora que atravessa shoegaze, metal alternativo, psicodelia, noise e rock experimental. Mais do que um selo, o AlterEgo se afirma como plataforma de articulação de uma geração que cria, produz, grava e circula à margem dos modelos convencionais — e, justamente por isso, aponta novos caminhos para a música brasileira contemporânea.
O selo se apresenta oficialmente ao público com o Festival AlterEgo, no dia 7 de fevereiro de 2026 (sábado), na Acaso Cultural, em Botafogo (RJ). No palco, três vetores centrais de uma cena independente em reorganização: Magnólia (SP), em plena turnê nacional; quedalivre (RJ), às vésperas do lançamento de seu primeiro álbum; e Sutil Modelo Novo (RJ), apresentando um novo EP.
Com gravação ao vivo, o festival assume também o papel de documento — registrando não apenas shows, mas a emergência de uma movimentação cultural articulada, coletiva e situada, que recusa o formato de lançamento como produto isolado e aposta na construção de cena, memória e circulação.
“O AlterEgo nasce como um projeto coletivo que entende a cena como um ecossistema. A ideia é profissionalizar todos os elos — das bandas aos designers, técnicos e produtores — e criar contextos de circulação que valorizem o trabalho de quem está envolvido. Quando você participa de eventos bem estruturados, percebe imediatamente como uma gestão coletiva consistente transforma não só a experiência artística, mas também a economia criativa local”, diz Victor Basto, diretor executivo do selo AlterEgo e guitarrista e voz da banda quedalivre.
No centro desse momento está seres urbanos, novo álbum da quedalivre, previsto para março de 2026 pelo selo AlterEgo. O disco funciona como um arquivo vivo do primeiro ano da banda, reunindo composições que nasceram ainda nos primeiros shows, em 2024, e outras criadas já sob o impacto da estrada, dos ensaios constantes e da maturação coletiva.
Após mais de 30 apresentações, lançamentos digitais e circulação intensa pela cena underground, a banda transforma experiência em linguagem. seres urbanos é a continuidade natural do EP sobre hábitos, mas também seu ponto de fechamento: menos rascunho, mais intenção; menos urgência juvenil, mais densidade emocional.
A sonoridade nasce do atrito entre polos quase opostos — o shoegaze, com sua vocação para o borrado, o etéreo e o sensorial, e o metal alternativo, com estruturas mais rígidas, peso e tensão rítmica. O resultado não busca uma síntese confortável, mas uma convivência instável, onde ruído, silêncio e repetição funcionam como elementos narrativos. O Festival AlterEgo marca o lançamento de “Acaso”, primeiro single do álbum.

Banda quedalivre
Aceitar o caminho como ele é
Primeiro single do álbum seres urbanos, “Acaso” apresenta o lado mais introspectivo do disco. A faixa parte de uma ideia simples e, ao mesmo tempo, difícil: aceitar escolhas, erros e desvios como parte do percurso — uma espécie de Amor Fati traduzido em som.
Inspirada por discos como In Rainbows (Radiohead) e pela psicodelia latino-americana de artistas como Oruã e Boogarins, a música se constrói em camadas sobrepostas, onde texturas, vozes e efeitos se revelam aos poucos, abrindo espaço para múltiplas escutas. Aqui, o silêncio não é ausência, mas elemento estrutural da composição.
DIY como estética e método
A produção de seres urbanos levou cerca de seis meses, entre gravações, testes e ajustes finos. Todo o processo foi conduzido de forma independente por João Mendonça e Victor Basto, que dividiram as funções de pré-produção, mixagem e masterização.
Mantendo a lógica DIY (“Do It Yourself”, que em português significa “faça você mesmo”) do EP anterior, o álbum aprofunda a mistura entre analógico e digital, com captações diretas em linha, uso consciente de noise e uma escolha deliberada por guitarras e vozes menos “limpas”. O resultado dialoga com referências como Fleshwater, Loathe, terraplana, Boogarins e o shoegaze contemporâneo, sem abrir mão de uma identidade própria construída em português.
quedalivre
Formada por jovens talentos com até 21 anos, a quedalivre é uma banda de rock alternativo que vem chamando atenção pela precocidade artística e pela maturidade de sua pesquisa sonora. O trio incorpora influências de shoegaze e nu metal, passando por referências como Deftones, Fleshwater, gorduratrans e terraplana, para construir um som experimental e intimista, distante de fórmulas fáceis.
Em canções em português, a banda explora texturas e sonoridades pouco usuais, combinando efeitos psicodélicos, distorções sujas e ritmos variados. As letras abordam temas cotidianos e questões existencialistas, resultando em um trabalho contemplativo, crítico e sensorial, que contrasta com a pouca idade dos integrantes.
A soma dessas referências — que vão do Clube da Esquina ao Breakcore — define a sonoridade da banda, formada por Lore Naias (guitarra e voz), Victor Basto (guitarra e voz) e João Mendonça (bateria). Mesmo em início de trajetória, o grupo demonstra um domínio estético raro para sua geração, apostando em densidade, processo e experimentação.
Presente de forma consistente no cenário underground do rock carioca, a quedalivre já se apresentou em eventos como Itinerância Rebel, na estreia do Festival das 100 Bandas e no Fim de Ano Sutil, além de casas como Audio Rebel, Espaço Redoma e Escritório Transfusão. Desde a estreia, quando lotaram o histórico Garage, a banda vem construindo uma base fiel de público e se posicionando como um dos nomes mais promissores da nova geração da cena independente carioca.
Festival AlterEgo: cena em estado bruto
Mais do que um evento pontual, o Festival AlterEgo funciona como um ato de fundação. Ao reunir bandas em diferentes estágios de trajetória, o selo afirma sua intenção de atuar como articulador de uma cena que não depende de validação externa para existir.
O que está em jogo não é apenas lançar discos, mas criar continuidade, circulação e memória para uma produção que cresce à margem — e que, justamente por isso, aponta novos horizontes para o rock alternativo brasileiro.
SERVIÇO – Festival AlterEgo
Onde: Acaso Cultural — Botafogo (RJ)
Rua Vicente de Sousa, 16
Quando: 7 de fevereiro de 2026
Atrações:
Magnólia (SP) • quedalivre (RJ) • Sutil Modelo Novo (RJ)
Horário:
Abertura às 17h | Encerramento dos shows às 21h
Gravação ao vivo
Ingressos:
3º lote: R$ 100 (inteira) | R$ 50 (meia)
Disponíveis pelo Sympla
