A contagem regressiva para a Copa do Mundo FIFA de 2026, sediada na América do Norte, foi interceptada por uma crise diplomática de proporções globais. O futebol europeu, historicamente o centro de gravidade financeiro e técnico do esporte, articula uma retaliação severa contra as recentes diretrizes de imigração do presidente Donald Trump e suas ameaças territoriais à Groenlândia. O movimento, que já transcende o debate esportivo, coloca a UEFA e a FIFA em uma colisão frontal com a Casa Branca.
Destaques
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O fato: Dirigentes da Alemanha e Holanda lideram discussões formais sobre a retirada de seleções do torneio.
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A disputa: A política de vistos dos EUA barra nações classificadas e a retórica sobre a Groenlândia mobiliza a diplomacia europeia.
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O cenário: Uma reunião decisiva do Comitê Executivo da UEFA está agendada para 11 de fevereiro em Bruxelas.
A ofensiva diplomática e o dilema da UEFA
A atmosfera nos bastidores da UEFA é de ebulição. Oke Göttlich, vice-presidente da Associação Alemã de Futebol (DFB), rompeu o silêncio institucional ao declarar que “chegou a hora” de deliberar seriamente sobre o boicote. Em entrevista ao Hamburger Morgenpost, o dirigente traçou um paralelo inquietante com os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980, sugerindo que os riscos atuais superam os da Guerra Fria.
Göttlich expôs a contradição ética que permeia as federações, criticando a passividade atual em comparação ao escrutínio aplicado ao Catar em 2022. “O Catar era político demais para todo mundo e agora estamos completamente apolíticos? Isso é algo que realmente me incomoda”, disparou.
Simultaneamente, a pressão popular inflama o debate na Holanda. Uma petição orquestrada pelo produtor de TV Teun van de Keuken, exigindo a retirada da seleção holandesa (“Laranja Mecânica”), já ultrapassou a marca de 142 mil assinaturas. O documento argumenta que a participação no evento configuraria um apoio implícito à “política de terror” de Trump contra imigrantes.
O fator imigração e o bloqueio de fronteiras
Além da tensão retórica, há impedimentos logísticos concretos que ameaçam a integridade da competição. O endurecimento das políticas de fronteira dos Estados Unidos criou um impasse para torcedores e delegações de quatro nações qualificadas: Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim.
Eryne Hanlon, especialista em direito imigratório ouvida pela Deutsche Welle, confirmou que cidadãos iranianos sem dupla cidadania estão virtualmente banidos de comparecer aos estádios americanos. Embora vistos de turista ainda sejam processados para a maioria das nacionalidades — incluindo brasileiros, apesar da suspensão de vistos de imigração —, a incerteza jurídica paira sobre o evento.
O jornalista britânico Piers Morgan amplificou a gravidade da situação ao sugerir que potências como França, Espanha, Alemanha e Itália deveriam “pausar a participação” enquanto negociações tarifárias e diplomáticas ocorrem. A ausência simultânea de oito das dez seleções favoritas poderia, na visão de analistas, inviabilizar o apelo comercial e técnico do torneio.
Geopolítica no futebol
O estopim para uma possível ação em bloco da UEFA reside na questão da Groenlândia. Relatórios indicam que representantes de 20 associações europeias reuniram-se em Budapeste para alinhar estratégias. A possibilidade de uma agressão militar ou anexação forçada do território dinamarquês pelos EUA é tratada como uma “linha vermelha” que, se cruzada, acionaria o boicote imediato.
Apesar da mobilização, figuras como Frank Paauw, da Federação Holandesa, e Marina Ferrari, ministra de esportes da França, mantêm cautela. Ambos descartam um rompimento imediato, mas admitem que o cenário é volátil. A reunião de Bruxelas, em fevereiro, deve definir se a UEFA reconhecerá a Groenlândia como membro, um movimento político que isolaria ainda mais a posição de Washington.
Para entender o caso
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O conflito: Ameaça de boicote europeu à Copa de 2026 devido a políticas de Trump (imigração e Groenlândia).
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Status: Em fase de deliberação; pressão crescente da Alemanha e Holanda.
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Próximo passo: Reunião do Comitê Executivo da UEFA em 11 de fevereiro.
FAQ P: Quais países estão impedidos de entrar nos EUA para a Copa?
R: Atualmente, as restrições de viagem impostas por Trump afetam diretamente torcedores do Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim.
P: A Copa do Mundo pode ser cancelada?
R: É improvável o cancelamento total, mas um boicote das principais seleções europeias esvaziaria o valor técnico e comercial do evento, gerando uma crise sem precedentes na FIFA.
P: O que a Groenlândia tem a ver com a Copa?
R: A ameaça de anexação da Groenlândia (território dinamarquês) pelos EUA gerou uma crise diplomática com a Europa, motivando a UEFA a considerar o boicote como ferramenta de pressão política.