O surgimento de um aplicativo chinês com um nome no mínimo peculiar de “Você Morreu?”, vem causando agitação nas redes. O nome original em chinês é Sileme (em chinês: 死了么; pinyin), esse nome é um trocadilho linguístico e cultural muito especifico:
Significado Literal: traduz-se diretamente como “Você morreu” ou “já morreu?
O Trocadilho: O nome foi criado para soar de forma idêntica ao Ele.me (饿了么), que é um dos maiores aplicativos de entrega de comida da China (cujo o nome significa “Você está com fome?”).
Devido as criticas e repercussão negativa no tom mórbido da proposta do nome, a desenvolvedora Moonscape Technologies, já anunciou a possível mudança para Demumu ou Sileme que ajudou o aplicativo a se popularizar na China.
Tirando as mudanças de nome e campanhas de marketing, temos um aspecto humano e social muito alarmante, a solidão na sociedade conteporanea, onde a ausência de contato humano regular precisa ser substituída por um algoritmo de vigilância.
Na China e no mundo os indicadores de pessoas que moram sozinhas só cresce, mas de 20% dos lares são ocupados por apenas uma pessoa. Viver sozinho deixou de ser exceção ou excentrismo, para ser tornar opção de vida. Contudo esta escolha tem um custo humano e em suas relações.
Paradoxalmente o aplicativo institucionaliza a ausência de laços, ele transforma a rede de apoio humana, mesmo uma “simples” amizade, vizinhos e família em uma função de “software”, o que não deixa de ser um tiro na culatra ou uma contradição na proposta inicial da dita tecnologia, que deveria nos conectar, agora é convocada para mitigar o risco mais primitivo da “vida” isolada: morrer em silêncio, sem que ninguém perceba.
A popularidade relâmpago do aplicativo, joga na cara da sociedade, o que muitas vezes esta por traz de sorrisos nas redes e que só ecoa depois que a porta se fecha; o silêncio da solidão é o que advém disso. Muito se fala que o ser humano é um ser social, então a pergunta que fica: o que estamos perdendo ou deixando para traz, será, que estamos desistindo de nós mesmos e preferimos o autoexílio.
Este sentimento de solidão deixou de ser pontual para se tornar um fenômeno pandêmico mundial. Nos estados unidos, Europa entre outras partes do mundo, mais da metade d população relata solidão frequente, no Japão temos o termo kodokushi – “morte solitária”, que descreve o drama das pessoas que são encontradas mortas depois de semanas.
O verdadeiro alarme disparado pelo aplicativo não é o sonoro, ativado pela falha no *check-in*, mas o moral e social. Ele nos força a confrontar a fragilidade da nossa estrutura de comunidade. A escolha pela vida sozinha, embora legitima e de escolha individual, não pode ser confundida com aceitação ou mesmo descaso as condições do isolamento. Um dos desafios dos próximos anos é resgatar a conexão humana genuína, antes que o silencio se torne a única “escolha”, a única resposta à nossa existência.
O alerta não deixa dúvidas: a tecnologia e seus avanços são inquestionáveis, fazem uma ponte para nosso futuro, mas jamais será um substituto a presença, ao toque e a conversa, nada substitui o contato humano. A solução mágica não está em um aplicativo ou em luzes azuis das telas, mas em uma conversa sincera se tomando um café, em um simples almoço em família, pequenas reuniões entre amigos, ou aquela ligação para matar a saudade com quem está longe.
Não deixe para depois o que pode ser feito hoje, já diz o dito popular.
A vida é feita de experiências de conexões, não tenha medo, afinal até o café gourmet mais caro daquela cafeteria chique, sai mais barato quando compartilhamos com aquela pessoa que queremos ao nosso lado.
Viva, simplesmente viva.
Teólogo e Filósofo em formação e curioso sobre o sentido da vida. Apaixonado por aprender, ensinar e inspirar reflexão.