Ato em frente à Prefeitura reafirmou o Estado Laico e a equidade religiosa no Rio

Nesta quarta-feira (14), líderes religiosos, ativistas, artistas e representantes da sociedade civil realizaram um ato público, em frente à sede da Prefeitura do Rio, na Cidade Nova, em defesa do Estado laico, da equidade religiosa e do direito à diversidade no uso dos espaços públicos.

A concentração teve início por volta das 11h. Antes das falas, os participantes formaram um cordão simbólico de mãos dadas diante do prédio da Prefeitura. O gesto coletivo estabeleceu o tom da mobilização: união, resistência e afirmação de direitos frente ao poder público. No centro do debate esteve a laicidade do Estado como princípio constitucional, capaz de acolher todas as crenças, e também quem não professa nenhuma, sem privilégios ou exclusões.

O ato reuniu em torno de 300 pessoas, sacerdotes, lideranças políticas, representantes do Grupo Cultural Òrúnmìlà, da Banda Afro Tafaraogi, da Umbanda Rio, do Instituto Carta Magna da Umbanda, Marcelo Fritz, Frei Tata, Pastora Lusmarina Garcia, intelectuais negros como Jacques d’Adesky, entre outros. A diversidade religiosa e cultural também se expressou na apresentação do Reisado Filhos da Flor – Filhos de Reis, de Duque de Caxias (Vila Rosário), reafirmando o papel central das culturas populares e tradicionais na formação da identidade brasileira.

A abertura das falas ficou a cargo de Padre Gegê, que entoou o canto histórico “O povo unido jamais será vencido”. A canção foi acompanhada em coro por todos os presentes, transformando a frente da Prefeitura em um espaço de afirmação democrática, memória coletiva e resistência.

O advogado Carlos Nicodemos, que atua na defesa dos direitos religiosos e integra a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, ressaltou o caráter jurídico da mobilização: “O que está em jogo aqui não é opinião, é o cumprimento da Constituição. O Estado brasileiro é laico, e a laicidade não é concessão política, é dever legal. Quando o poder público escolhe quem pode ocupar o espaço financiado com recursos públicos, ele deixa de ser laico e passa a produzir exclusão institucional.”

“Defender o Estado laico é garantir que nenhuma fé seja silenciada e que nenhuma crença seja transformada em instrumento de privilégio.”, O babalawô Ivanir dos Santos reforçou a dimensão ética e democrática da pauta

Representando a Association Sholem Aleichem (ASA), David Albagli Gorodicht destacou o apoio da comunidade judaica ao ato: “Estamos aqui também dando apoio a este evento dentro do espectro da comunidade judaica, que luta pelo Estado laico. Consideramos fundamental essa afirmação que está acontecendo aqui e agora, na porta da Prefeitura.”

O pastor Julio Costa, da Igreja do Ministério Lúcio Apostólico, em Belford Roxo, enfatizou o caráter ecumênico da mobilização: “Esse ato foi a defesa do Estado laico. É muito importante defendermos para que haja tratamento igualitário para todas as religiões.”

Já Carlos Alberto Pracias, babalorixá do Asé Ilê Omim Odara, em Mesquita, destacou a relação direta entre laicidade e democracia: “Esse ato foi muito importante para que a gente pudesse manter um Estado realmente laico e também a democracia. Se pode para um, tem que poder para todos. Se não pode para nenhum, não pode para ninguém.”

O protesto ocorreu em meio à controvérsia envolvendo a instalação de um palco gospel no Réveillon da Praia do Leme, episódio que reacendeu o debate sobre o tratamento desigual entre manifestações religiosas promovidas e financiadas pelo poder público. Para os participantes, a mobilização reafirmou que a defesa do Estado laico não representa ataque a nenhuma fé, mas uma exigência de justiça, equidade e respeito à pluralidade religiosa brasileira. A palavra de ordem do ato, “Essa Gente Somos Nós”, sintetizou o espírito da manhã: pertencimento, dignidade e a recusa histórica à invisibilização das religiões de matriz africana e de outros segmentos religiosos no espaço público.

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