“Cinderela Negra”: uma princesa de pés no chão que brilha com ancestralidade e representatividade (Crítica)

Cinderela Negra

Misturando tecnologia de ponta, ancestralidade africana e uma narrativa sensível, o espetáculo Cinderela Negra encantou o público no Cine Teatro Barra Point neste domingo (18). Com direção, texto e músicas de Rô Sant’Anna, a peça entrega uma releitura ousada, pertinente e necessária de um clássico universal, agora protagonizado por uma princesa que reflete a beleza da maioria dos brasileiros.

O cenário digital e o uso criativo de múltiplas telas trazem um ar contemporâneo à encenação, sem abrir mão das raízes culturais. A narrativa é conduzida por uma contadora de histórias que também canta — e encanta. É através dela que o público é apresentado a uma nova Cinderela: negra, forte, sonhadora e muito pé no chão.

As músicas originais são um show à parte. Embalam as cenas com precisão, emoção e identidade, refletindo tanto a trama quanto a cultura afro-brasileira que permeia cada detalhe da peça. O humor é bem dosado e conquista crianças e adultos. Destaque para a madrasta, Mama, vivida com carisma e intensidade — um espetáculo à parte.

Mais do que um espetáculo infantil, Cinderela Negra é uma produção para todas as idades. A fada madrinha, por exemplo, é representada por Obá, orixá guerreira que inspira coragem, justiça e ação — uma presença feminina poderosa que foge completamente do estereótipo eurocêntrico.

Os figurinos são de extremo bom gosto e colaboram para a construção estética dos personagens. Cada detalhe está ali por uma razão — das cores às texturas, tudo dialoga com a proposta de valorização da identidade negra.

Em conversa com a autora e diretora Rô Sant’Anna, ela destaca o impacto da representatividade no palco:

“A princesa é negra, o elenco todo é negro. Temos pessoas de classe alta, uma vilã negra, uma princesa negra… E as meninas ficam encantadas: ‘Como somos belas, todas somos belas’. Isso traz empoderamento para essas meninas que crescem acreditando que a beleza é a Barbie, loira e muito magra, e não o nosso corpo volumoso, a nossa cor retinta, o nosso cabelo crespo. Eu falo que são 50 tons de negros no mundo, para todas as crianças negras reconhecerem que isso também é beleza.”

Além de ser uma adaptação sensível, o texto é fruto de uma longa pesquisa. “As pessoas acham que a história da Cinderela começa com a Disney, mas ela vem de muito antes”, explica Rô. “Nossa versão traz um molho afro-brasileiro. As músicas e o texto são originais e têm base em elementos culturais de Angola — gírias, pratos típicos e figurinos foram pesquisados cuidadosamente.”

Mesmo com toda essa excelência, a realidade do teatro independente ainda impõe barreiras. “Não conseguimos patrocínio. As empresas apoiam grupos conhecidos. E os artistas profissionais, mas não famosos, ficam à margem, mesmo com um trabalho bem-feito e com ótimo feedback do público.”

O processo de criação e ensaio foi intenso:

“Primeiro escrevi o texto e as músicas com base na pesquisa. Depois ensaiamos todos os dias, de segunda a segunda, durante horas. A gente queria entregar excelência — e conseguimos.”

Cinderela Negra é uma peça que vale cada minuto e cada centavo do ingresso. Um espetáculo que honra suas origens, questiona padrões e mostra que todas as meninas — de qualquer cor — merecem sonhar, brilhar e ocupar o palco da vida.

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