Quem passa pela Rua do Rosário, 24, no Centro do Rio, nas noites de sexta e sábado, encontra um convite direto ao coração da cidade: samba na rua, público numeroso e um clima que remete à melhor tradição carioca. É ali que a Casa de Cultura Volta do Mundo e Conexões abre as portas para uma roda de samba que vem se consolidando como uma das mais frequentadas do Rio, reunindo, em média, quase mil pessoas por edição.
Com datas fixas às sextas e aos sábados, a roda passou a integrar o calendário cultural do Centro. Em alguns períodos, a programação se estende por até quatro dias na semana, sempre com a proposta de samba de raiz, acesso aberto e ocupação qualificada do espaço urbano em uma das áreas mais simbólicas e valorizadas da cidade.
A consolidação da roda contou, desde o início, com a troca de experiências de nomes históricos do samba carioca. Lúcio Pacheco, do tradicional Beco do Rato, contribuiu no processo de formação do projeto, compartilhando aprendizados e referências fundamentais. Atualmente, a programação é fortalecida pelos produtores Bruno Vidal, ligado ao Império Serrano e à Resenha Serrana, e Felipe Donguinha, neto de Donga. Cada um agrega identidade musical e amplia o alcance da roda, mantida como um trabalho coletivo.

“O samba é encontro e continuidade. Essa roda cresceu porque foi pensada com cuidado, respeito à tradição e compromisso com o espaço que ocupa. E esse crescimento permite que a casa siga cumprindo sua função social”, afirma Simone Torres, uma das gestoras da Casa de Cultura Volta do Mundo e Conexões. “A casa estruturou o projeto trazendo produtores para fomentar esses eventos e vem dando certo”, finaliza.
Os números ajudam a dimensionar o alcance do projeto. Em oito meses de funcionamento contínuo, mais de 50 mil pessoas já circularam pelas rodas realizadas no local. A média varia entre 800 e mil pessoas por edição, confirmando o samba como eixo central da dinâmica cultural da casa.
“Aqui o samba não é apenas espetáculo. Ele sustenta um projeto maior, que devolve para a cidade aquilo que a cidade constrói”, resume Bruno Vidal, um dos produtores. “Encontrar um espaço como esse no Centro do Rio foi o que me motivou a colaborar com o projeto”, observa Felipe Donguinha.
Esse impacto se reflete diretamente nas atividades sociais desenvolvidas ao longo da semana. A Casa de Cultura Volta do Mundo e Conexões mantém ações voltadas a adolescentes em situação de vulnerabilidade, muitos deles com histórico de evasão escolar e passagem por medidas socioeducativas. Os jovens chegam encaminhados pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), da Prefeitura do Rio, e passam a integrar uma rotina estruturada de capoeira, música e acompanhamento contínuo, com foco em disciplina, convivência e reconstrução de vínculos.
Além do trabalho com esses adolescentes, o espaço desenvolve atividades educativas e culturais abertas a mulheres e à população do entorno, funcionando como ponto permanente de formação, acolhimento e articulação com políticas públicas. É esse conjunto de ações sociais, culturais e socioeducativas que passa a ser sustentado diretamente pelo sucesso das rodas de samba realizadas nos fins de semana.
“Ao unir programação consistente, público fiel e compromisso social, a roda de samba se firma como exemplo de como tradição cultural, gestão e impacto social podem caminhar juntos no cotidiano do Rio de Janeiro”, define Eduardo Escadão, sócio e também gestor do espaço.
