Espetáculo A Cuca estreia no Teatro do Futuros – Arte e Tecnologia

Um espetáculo transmídia de Renato Rocha

por Redação
A Cuca _ foto de Bruna Zaccaro

De 6 de fevereiro a 29 de março de 2026, o Futuros – Arte e Tecnologia recebe a performance transmídia “A Cuca”, que invoca a personagem icônica da cultura brasileira em uma obra sensorial que reflexiona sobre que mundo deixaremos para as próximas gerações. A concepção do novo espetáculo teatral de Renato Rocha, um artista multilinguagem de carreira internacional, parte de uma pergunta provocante: “Papai, quando eu crescer, o mundo ainda vai existir?”. O que acontece quando uma filha pergunta isso a um pai? O que um artista faz quando percebe que o futuro deixou de ser uma abstração e passou a ter nome, rosto e voz? Que o futuro na verdade é o agora. A Cuca, como performance transmídia, marca o retorno de Renato Rocha à cena como performer após 14 anos afastado dos palcos. Neste solo performático, a Cuca que Renato se torna não assusta. Ela chama. Ela guarda. Ela pergunta. E nos obriga a escutar.

A pergunta foi feita por Julieta, então com três anos de idade, durante a pandemia, enquanto seu pai, o artista Renato Rocha, conduzia o projeto Casa Comum, reunindo artistas indígenas de diferentes regiões da Amazônia em encontros virtuais para refletir sobre o planeta como território e lar compartilhado entre todos os seres viventes. No meio de uma dessas reuniões, a pergunta atravessou a sala, a tela e o corpo do artista — e nada mais foi o mesmo. É desse abalo íntimo que nasce A Cuca, projeto multilinguagem que transforma angústia em rito, e rito em obra. Um trabalho que cruza performance, teatro, carnaval, ancestralidade, artes visuais, literatura, vídeo e música para imaginar — com urgência poética — quais mundos ainda podem ser deixados para as próximas gerações.

A Cuca que emerge da obra de Renato Rocha não é a bruxa aterrorizante das cantigas de ninar. Não é a Cuca do Sítio do Pica Pau Amarelo. Não é um dos mitos mais temidos da cultura popular brasileira. É guardiã. É um VISAGE — entidade ancestral presente em diversas culturas indígenas, invocada em rituais de transmissão de saber e memória. Guardiã da floresta, jacaroa, figura feminina demonizada pela cultura ocidental, a Cuca é ressignificada como elo entre tempos, gerações, mundos, corpos e linhagens. Convoca o passado para imaginar futuros possíveis e modificar o agora.

“Nesta obra, a Cuca se torna um espírito do carnaval mangueirense, minha escola de coração. Ao vesti-la, encarno a Cuca, me torno um visage, um ancestral, e invoco minha avó Osmida, pernambucana, costureira e bordadeira que migra para o Rio de Janeiro em busca de sobrevivência. Assim, o traje torna-se pele–habitat–parangolé, costurando passado, presente e futuro numa mesma presença simbólica.” – Renato Rocha

A criação atravessa o retorno de Renato ao Brasil em 2016, em meio às turbulências políticas do país, o nascimento de Julieta em 2018 e sua longa história no carnaval carioca, marcando uma virada em sua trajetória: uma arte cada vez mais comprometida e engajada com as questões da contemporaneidade. A pergunta da filha transforma-se em motor ético e estético da obra: existirá um mundo habitável daqui a 30 anos ou estamos nos aproximando do fim? Mais do que um personagem, a Cuca é um organismo artístico em expansão. Já realizou duas aparições públicas no carnaval do Rio de Janeiro, incluindo uma intervenção no entorno do Sambódromo, passagem pela Sapucaí, desfiles no Boi Tolo, Boitatá e no Bloco Tecnomacumba. As imagens dessas aparições — entre rito, cortejo e insurgência poética — integram o material audiovisual do projeto.

Reconhecido internacionalmente por sua trajetória em grupos como a Intrépida Trupe e o Nós do Morro, e por trabalhos desenvolvidos em mais de 14 países com instituições como a Royal Shakespeare Company, Circolombia, LIFT Festival, BAM e Roundhouse, Renato Rocha constrói, em A Cuca, uma síntese radical de sua pesquisa artística: uma obra que nasce do afeto, atravessa o mito e desemboca na urgência política do nosso tempo.

O percurso Cuca, por Renato Rocha

“Durante o desenvolvimento do CASA COMUM, vivendo uma residência artística de um mês na Amazônia — entre rios, florestas e cidades —, atravesso uma navegação de um dia inteiro com o povo Sateré-Mawé.

É nesse estado de escuta profunda, entre o real e o mítico, que surge o insight: a Cuca. Não como a figura do medo infantil, mas como um visage, uma ponte entre mundos, entre o planeta e o universo mágico do carnaval, como um possível lugar de fala.

Dessa forma, para mim, ela passa a encarnar o espírito do carnaval da Estação Primeira de Mangueira — território simbólico afetivo de onde posso puxar o fio das mulheres da minha família, convocar minha avó pernambucana, acessar uma linhagem ancestral feminina e, a partir daí, dialogar com minha filha sobre o futuro que se constrói no agora.

A Cuca se materializa pela primeira vez em 2024, no Carnaval do Rio de Janeiro, como figura do carnaval de rua carioca, desfilando nas ruas da cidade pelos arredores da Sapucaí e durante o cortejo do Cordão do Boi Tolo.

Ao se trajar de Verde e Rosa, ela carrega as cores do lugar onde cresci, o Maracanã. Minha avó morava perto da Mangueira; essa relação é antiga, afetiva, estrutural. Essa é a Cuca ancestral.

Ao encarná-la, invoco minha avó, invoco as mulheres que me antecedem, para falar com Julieta — e falar do mundo.

A cada aparição, acompanhada por videomaker e fotógrafa, a Cuca gera material audiovisual e se transforma. Ela é pesquisa viva. Troca de pele.

No segundo ano, surge em vermelho: cor do amor de pai para filha, mas também do sangue, da encruzilhada, da escuta e do movimento. A cor de Exu, o dono do carnaval, aquele que pede licença, que abre caminhos, que governa o carnaval e permite a travessia entre mundos.

E ela desfila no cortejo do Bloco Tecnomacumba, da artista Rita Benneditto, além de participar também do desfile do Cordão do Boitatá.

Esse projeto, que transborda para múltiplas linguagens, encontra finalmente sua forma como uma performance transmídia no Futuros – Artes e Tecnologia, um lugar profundamente ligado à minha trajetória.

Voltar ao Futuros para estrear A Cuca tem, portanto, uma dimensão simbólica e afetiva profunda. É a inauguração da Cuca na cena contemporânea carioca, como um espetáculo.

É também meu retorno aos palcos como ator, depois de quase quinze anos — meu primeiro solo. Nada poderia ser mais apropriado do que fazê-lo nesse espaço onde arte, tecnologia, memória e futuro se cruzam.

Afinal, no fundo, tudo começa — e continua — tentando responder à mesma pergunta: que mundo estamos deixando para quem vem depois?

A Cuca é também sobre celebrar a vida que é passada de geração a geração e a existência. Sobre viver, trocar de pele e gestar mundos.

É sobre a responsabilidade de abrir os caminhos pros que vem depois, ocupar os espaços, exaltar a alegria e o amor. Sobre pulsão de vida, beleza, poesia e carnaval.

É sobre também reinventar memórias e habitats, e refundar uma sociedade mais igualitária e empática.

O projeto se dá em campo expandido e ampliado, esgarçando visões e tensionando lugares pré-estabelecidos.”

Quem é Renato Rocha

Um artista multilinguagens!

Dirigiu projetos na Índia, Berlim, Tanzânia, Quênia, Egito, Paris, Nova Iorque, Edimburgo, Estocolmo, Budapeste, Portugal e Colômbia.

Teve sua carreira consolidada dentro de grupos importantes da cena artística brasileira, como o grupo de circo Intrépida Trupe, Cia Bufomecânica e Grupo de Teatro Nós do Morro, que o alçou ao cenário internacional, para trabalhar com a Royal Shakespeare Company, em Londres.

Criou espetáculos consagrados para a RSC, The Roundhouse, LiFT Festival, Circolombia, Bienal Internacional de Artes de Marselha, National Theatre of Scotland, Festival Internacional de Leicester, União Européia e Unicef.

Foi diretor artístico da Organização Street Child United, em Londres (uma rede global de 20 países, no trabalho com jovens em situação de rua), e também do Circus Incubator, colaboração entre França, Finlândia, Suécia, Espanha, Canadá e Brasil.

Em 2016, fundou o NAI – Núcleo de Artes Integradas, no Brasil, onde criou trabalhos transmídias em parceria com importantes instituições arte, como ArtRio, MAM-RJ, MAR, MAC, National Theatre of Scotland e COP-26 em Glasgow, sendo indicado ao Shell-RJ de 2018, na categoria inovação.

Dirigiu “Rastros” com o Circo Crescer e Viver, “Ayrton Senna” e “O Meu Destino é Ser Star” com a Aventura Entretenimento, e em 2019, o premiado “Eu, Moby Dick” com a Oi Futuro.

Dirigiu em 2022, o espetáculo Urutu, no CCBB-RJ, levando 10.000 espectadores em 10 apresentações.

É criador do projeto “Casa Comum”, financiado pelo British Council, no coração da Amazônia com o povo indígena Sateré Mawé, onde os 12 artistas amazônidos, juntamente com Renato, o estúdio londrino SDNA, os cineastas Takumã Kuikuro e Rafael Ramos e o artista sonoro Daniel Castanheira, criaram vídeos performances que refletiram sobre a cosmovisão indígena do planeta como uma casa comum, iluminada por Ailton Krenak.

O projeto, que já alcançou dezenas de milhares de espectadores ao redor do mundo, fez parte da programação artística do Casa Festival em Londres, da COP26 em Glasgow, do Festival Amazônia Mapping no Pará, do Mimo Festival, no Porto e no Futuros – Arte e Tecnologia, no Rio de Janeiro.

Trabalha também no Carnaval, dirigindo e coreografando carros alegóricos das principais escolas de samba do Rio de Janeiro.

Ficha Técnica

  • Criação Cuca, dramaturgia, direção e performance: Renato Rocha
  • Interlocução artística: Valéria Martins e Márcio Vito
  • Trilha sonora de Renato Rocha, a partir de músicas de Daniel Castanheira e Felipe Habibi
  • Iluminação: Paulo Denizot
  • Videografismo: Plínio Hit
  • Colaboração videografismo: Breno Buswell
  • Assistência de videografismo: Crísia
  • Participação em vídeo: Xauãna Pataxó
  • Operação multimídia: Arthur Souza
  • Captação de imagens e edição de vídeo: Breno Buswell e Pedro Guaraná
  • Registro em vídeo: Breno Buswell
  • Colaboração trajes e indumentárias: Tarsila Takahashi
  • Adereços luminosos: O aramista
  • Direção de Produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela
  • Produção: Galharufa Produções Artísticas
  • Assistência de Produção: Karina Campos
  • Fotos e teasers: Bruna Zaccaro
  • Design Gráfico, Mídias sociais, marketing digital e parceria institucional: Lead Performance
  • Assessoria de imprensa: Ney Motta
  • Coordenação geral do projeto: Renato Rocha
  • Realização: RR Produções Artísticas
  • Co-realização: Futuros – Arte e Tecnologia

Serviço

A CUCA

  • Futuros – Arte e Tecnologia
  • Rua Dois de dezembro, 63, Flamengo, Rio de Janeiro (próximo ao Metrô Largo do Machado)
  • Informações: (21) 3131-3060
  • Temporada: 06 de fevereiro até 29 de março de 2026, quinta à domingo às 19h
  • Ingressos: R$ 60,00 (inteira) e R$  30,00 (meia entrada)
  • 16 anos
  • 55 minutos

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