No Dia dos Namorados, enquanto restaurantes lotam de casais e promessas românticas, duas mulheres sobem ao palco do Teatro Café Pequeno para perguntar: afinal, ainda existe amor heterossexual possível no século XXI? É dessa provocação que nasce “Heterotopia – O amor existe, mas a que custo?”, comédia teatral autoral que estreia no dia 12 de junho, no Rio de Janeiro, em curta temporada até 28 de junho.
Idealizado, escrito e protagonizado por Bruna Sigmaringa e Cristina Mascarenhas, com direção e colaboração dramatúrgica de Alessandra Carvalho, o espetáculo mistura humor ácido, cultura pop e música para investigar as contradições das relações amorosas contemporâneas.
O projeto surgiu a partir de incômodos vividos pelas atrizes no meio artístico, quando perceberam como estruturas machistas atravessavam naturalmente as relações e os espaços de fala. “Quando os homens falavam, eles eram ouvidos. As mulheres não. Aquilo foi dando uma inquietação e resolvemos escrever uma peça”, conta Cristina. A partir dessa percepção, as artistas passaram a refletir sobre como estruturas patriarcais atravessam as relações amorosas contemporâneas, tema que se tornou o eixo central da montagem.
Assim nasceu o conceito que dá nome ao espetáculo: um lugar imaginário onde relações equilibradas, saudáveis e generosas finalmente seriam possíveis. Ao longo da narrativa, porém, as personagens percebem que talvez essa perfeição simplesmente não exista. “Assim como boa parte de nós, as personagens também buscam o impossível, ainda que a gente saiba que relações perfeitas não existem. Nesse sentido, a peça não é pessimista, ela fala sobre a persistência, sobre acreditar no amor e continuar tentando apesar de tudo”, reflete a diretora.
A dramaturgia foi construída coletivamente em sala de ensaio, misturando relatos autobiográficos, histórias de amigas, improvisações e situações absurdas inspiradas no cotidiano afetivo contemporâneo. O resultado é uma sequência de esquetes costuradas por duas “caçadoras” futuristas que atravessam aplicativos de relacionamento, dates fracassados, contos de fadas e situações delirantes enquanto analisam diferentes “espécimes masculinos” encontrados pelo caminho.
Entre eles, estão o “Cupidus evaporatus”, homem que desaparece depois de bombardear a parceira de mensagens ou ainda o “Ineptus linguais”, “homem que diz gostar da fruta, mas se recusa a lamber o caroço”. No percurso surgem princesas empoderadas, cientistas duvidosas, Evas indignadas, abelhas vivendo um “meltriarcado” e até uma “Super Peca”, heroína criada para discutir prazer feminino com humor e deboche. “A peça tem um comprometimento político, mas ela não é panfletária. A proposta era criar uma comédia popular, capaz de alcançar um público amplo e despertar identificação e empatia entre as mulheres.”, explica Alessandra.
Na encenação, corpo e palavra dividem protagonismo. As atrizes partem de uma roupa-base e constroem múltiplos personagens por meio de adereços e transformações rápidas em cena. A estética visual aposta em uma cenografia minimalista criada por Bea Simões, apoiada em projeções audiovisuais, microfilmes e imagens digitais que ajudam a expandir os universos da peça. Um tecido ao fundo do palco recebe vídeos e projeções que acompanham a narrativa das personagens.
A montagem também incorpora recursos de inteligência artificial na criação da “deusa” que conduz simbolicamente a narrativa. A personagem ganha voz da influenciadora baiana Jaque Conserta, conhecida nas redes sociais pelos vídeos sobre machismo cotidiano e autonomia feminina.
A iluminação de Yasmim Lira desenha os diferentes espaços cênicos da montagem, enquanto a sonoplastia de Thais Tomaz conduz as músicas e paródias presentes no espetáculo. Já o trabalho corporal conta com a colaboração em direção de movimento de Bárbara Abi-Rihan.
Apesar das críticas aos relacionamentos contemporâneos, “Heterotopia” termina de maneira menos cínica do que parece. Entre ghostings, frustrações e desencontros, a peça aposta no humor, na amizade entre mulheres e na possibilidade de continuar acreditando nas relações, mesmo sem garantias. “É sobre se reconhecer na experiência da outra. A gente ri juntas, enfrenta os problemas juntas e segue de mãos dadas, mesmo nas dificuldades.”, define Bruna.
Ficha Técnica
Heterotopia – O amor existe, mas a que custo?
- Teatro Municipal Café Pequeno — Junho de 2026
- Idealização, dramaturgia, atuação e produção: Bruna Sigmaringa e Cristina Mascarenhas
- Direção e colaboração dramatúrgica: Alessandra Carvalho
- Assistência de direção: Fernanda Brandt
- Cenografia e figurino: Bea Simões
- Sonoplastia: Thais Tomaz
- Narrações em off: Jaque Pinheiro (Jaque Conserta) e Thais Tomaz
- Captação, mixagem e masterização de som: Marcos Xi
- Iluminação: Yasmim Lira
- Operação de luz: Yasmim Lira, Dani Saboia e Guilherme Gelain
- Colaboração em direção de movimento: Bárbara Abi-Rihan
- Colaboração em coreografias: Letícia Guerra
- Interlocução artística: Malu Costa
- Assessoria de imprensa: Fernanda Lacombe — LAGE Comunicação
- Design gráfico: Gustavo Rocha
- Motion design: Matheus Soares
- Fotografia do cartaz: Edit Lucas
- Fotografia, vídeo e mídias sociais: Tainá Seixas
- Captação de imagens: Lyana Peck, Tainá Seixas e Gustavo Rocha
- Edição de imagens: Lyana Peck e Tainá Seixas
SERVIÇO
“Heterotopia – O amor existe, mas a que custo?”
- Temporada: 12 a 28 de junho de 2026
- Local: Teatro Café Pequeno (Avenida Ataulfo de Paiva, 269, Leblon)
- Sessões: sextas e sábados, às 20h, domingos, às 19h
- Valor: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
- Lotação: 90 pessoas
- Classificação Etária: 16 anos
- Duração: 80 minutos
- Informações: (21) 3085-0662.
Ingressos antecipados pelo Sympla
