“Jorge pra sempre Verão” retorna ao Rio de Janeiro

Jorge pra sempre Verão
Jorge pra sempre Verão - Foto: Rodrigo França

Após o sucesso da temporada de estreia no Rio de Janeiro em 2022 e circular por capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, o espetáculo “JORGE pra sempre VERÃO” retorna ao Rio de Janeiro, cidade natal de Jorge Laffond e de sua prima, a produtora e autora Aline Mohamad, que resolveu abrir seus arquivos pessoais mais íntimos para desenvolver o espetáculo em parceria com Diego do Subúrbio. Após Aline escrever uma carta póstuma para seu primo, surgiu a ideia da montagem, intencionando realizar um teatro de cura. A nova temporada nos palcos cariocas acontece no Teatro dos Correios Léa Garcia entre os dias 07 e 30 de março, de quinta-feira a sábado, sempre às 19h. Dirigida por Rodrigo França, a história encenada por Alexandre Mitre, Aretha Sadick, Erika Marinho e Noemia Oliveira não fala apenas sobre o artista falecido aos 51 anos (1952-2003), mas apresenta uma ficção desenvolvida sobre uma história verídica: a da relação que, devido ao preconceito, deixou de existir entre ele e uma prima – a própria Aline.

“Depois dos 30 anos algumas coisas foram mudando em mim. Um dia, ao voltar de uma festa onde me vi atraída por uma travesti, escrevi uma carta que nunca seria entregue ao destinatário. Um pedido de desculpas, uma redenção, uma luz nas diversas encruzilhadas que eu tenho com meu primo Jorge Laffond. Muito emocionada, enviei essa carta para alguns amigos e, ao acordar, li as respostas: você tem uma linda peça nas mãos. E assim percebi que a única forma de eu encontrar com meu primo é através da arte”, relembra Aline Mohamad, que ao longo de sua infância se esquivou de conhecer o primo pela estranha figura que ele lhe parecia.

Dando continuidade à política de acesso, pessoas transexuais têm entrada gratuita, bastando enviar uma mensagem pelo perfil do Instagram @jorgeprasempreverao para confirmar sua data junto à produção. “Fizemos uma reparação histórica, humanizando um dos maiores artistas deste país. Jorge Laffond passou por um grande dilema na história da televisão brasileira, que retrata o que é o país em relação à população negra e LGBTQIAP+. A violência de ter que sair do estúdio de TV para trocar de roupa, pois um padre entraria, nos mostra o quanto é cruel sermos nós mesmos. Pouco importa a sua titulação acadêmica, conta bancária, o que você é ou fez pela sociedade. Em algum momento tentarão te colocar no lugar que acreditam que você deva estar – na submissão”, reflete Rodrigo França.

Apesar dos apontamentos sobre a realidade nada fácil vivida por Laffond, o texto tem pontos de respiro com base no humor, principal característica dos seus personagens. “O processo da escrita do texto veio muito da pesquisa sobre a vida do Jorge, que se encontra na mesma encruzilhada que a minha e de muitas outras pessoas negras LGBTQIAP+. É lembrar que, apesar de todo o processo de resistência que vivemos perante essa sociedade, não somos regidos somente pela dor. A figura de Jorge Laffond marcou uma geração, nos movendo até aqui. Falar dele é também falar sobre mim”, reconhece Diego do Subúrbio.

Nascido em Laranjeiras e criado na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, o furacão Laffond disse certa vez numa entrevista que tinha consciência de ser gay desde os seis anos de idade, mas que por ser algo considerado muito feio naquela época, fez de tudo para que seus pais não descobrissem. Formou-se em teatro pela Uni-Rio e ainda em dança afro e balé clássico, tendo dançado com Mercedes Batista, a primeira bailarina negra a ser integrante do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi, por fim, um ícone da representatividade negra e LGBTQIAP+.

“O movimento LGBTQIAP+ sempre foi encabeçado por pessoas pretas, como Marsha P. Johnson, uma mulher trans negra norte-americana que liderou a Rebelião de Stonewall, em 1969. E Jorge Laffond estimulou que muita gente tivesse coragem para externar aquilo que realmente é na vida. Estamos falando de um homem negro retinto, afeminado e com mais de dois metros de altura vestido de mulher na televisão brasileira. Mas óbvio que não foi fácil. Nele havia mais do que talento, havia estratégia inteligente”, observa Rodrigo.

Em cena, as atitudes de Jorge mostram uma potente força interna e autônoma, apesar da sociedade opressora para quem ele foi, ao mesmo tempo, uma pessoa exótica e diversão pra família tradicional brasileira. “Neste ponto, Silvio de Almeida fala sobre Racismo Recreativo. Fazendo uma livre ressignificação deste termo, enxergar Jorge como o gay divertido nos mostra uma Homofobia Recreativa. Sempre foi aceito rir dos gays, tê-los como amigos apenas para os momentos de risada, mas nunca para ouvir suas dores. Jorge já trazia em si muitas dores e estereótipos. Era o negão lindo e hiperssexualizado, e, ao mesmo tempo, chamar alguém de Jorge Laffond ou Vera Verão era ofender a pessoa por ela ser afeminada”, pontua Aline.

Para Rodrigo, num espetáculo de denúncia é importante falar de cura. “A plateia tem que sair com esperança – o que não significa facilitar para o espectador. Jogamos duro, mas optamos por também mostrar o contraponto da violência. Jorge teve amigos e familiares amorosos, e realizou uma contribuição extraordinária à cultura. Ele estava fazendo uma grande revolução. Sou um diretor com compromisso com a sociedade e, para mim, entretenimento é de grande responsabilidade na formação ou deformação de quem faz e assiste. O teatro não dá conta de modificar uma estrutura social, mas pode trazer reflexões. Se quem assistir sair tocado pela narrativa que construímos, já me sentirei realizado”, ressalta Rodrigo, que se reconhece “forjado por esse profissional que pouca gente conhece”.

Aline teve receio com a superexposição, mas entendeu que era exatamente sobre isso: um teatro de cura. “Não me vejo apenas como a Prima, mas como Sociedade. Uma sociedade doente que resolve cortar laços com sua família apenas por vergonha de olhar pras suas feridas. Jorge é uma figura extremamente importante na construção dos nossos corpos. Sua forma livre, verdadeira, mostrou a hipocrisia presente em nossas vidas na forma de alegria divina. Seu jeito sincero, genuíno, real, possibilitou que vários corpos de hoje existissem da maneira que são. A sensação é de cura, de redenção”, finaliza.

FICHA TÉCNICA:

  • Dramaturgia: Aline Mohamad e Diego do Subúrbio
  • Direção: Rodrigo França
  • Elenco: Alexandre Mitre, Aretha Sadick e Erika Marinho / Noemia Oliveira
  • Direção de Movimento: Tainara Cerqueira
  • Trilha Original: Dani Nega
  • Operação de Som: Igor Borges
  • Direção e Operação de Imagens: Carolina Godinho
  • Cenário: Rodrigo França e Wanderley Wagner
  • Iluminação e Operação de Luz: Pedro Carneiro
  • Figurinos: Marah Silva
  • Visagismo: Diego Nardes
  • Mídias Sociais: Júlia Tavares
  • Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Comunicação
  • Produção Executiva: Anne Mohamad
  • Produção e Realização: MS Arte e Cultura e Corpo Rastreado
  • Idealização: Aline Mohamad

SERVIÇO:

“JORGE pra sempre VERÃO”

  • Temporada: 07 a 30 de março
  • Dias da semana: Quinta-feira a Sábado
  • Horário: 19h
  • Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) / R$ 40 (inteira)
  • Política TRANS FREE – pessoas transexuais assistem de graça, basta pedir inserção do nome na lista pela página do espetáculo no Instagram @jorgeprasempreverao
  • Local: Teatro dos Correios Léa Garcia
  • Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, nº 20 – Centro – Rio de Janeiro
  • Informações: (21) 3088-3001
  • Classificação Indicativa: 14 anos
  • Duração: 75 minutos

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