Jovens que se contam: a nova onda das autobiografias íntimas

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Como a urgência de narrar a própria vivência e as novidades do mundo digital têm empurrado uma geração a transformar memórias, dores e aprendizagens em livros, em versos, prosa curta e autoficção, e porque obras como “Todas as vezes que eu me afoguei, em mim mesma”, de Mari Binhote, simbolizam essa travessia.

O que distingue a atual safra de autobiografias juvenis não é apenas a idade de quem escreve, mas a disposição para expor fragilidades sem pedir licença. Entre relatos de saúde mental, identidades em formação e perdas aceleradas por crises coletivas, ambientais, políticas, pandêmicas, jovens autores encontraram na literatura uma forma de registrar pulsões íntimas que antes ficavam restritas ao diário ou à conversa privada. A circulação imediata das redes e a cultura da confissão terapêutica deram ferramentas e coragem: escrever virou também ato de pertencimento e de busca por leitores que reconheçam uma dor ou um percurso.

As novidades tecnológicas e culturais reconfiguram tanto a escrita quanto sua recepção. Plataformas digitais e autopublicação permitem que vozes fora dos circuitos tradicionais cheguem rápido ao público; formatos híbridos, poesia que se aproxima do ensaio, micro autobiografias, textos fragmentados acompanhados por imagens ou áudio, respondem à vida acelerada e à economia da atenção. Ao mesmo tempo, a amplificação de discursos sobre saúde mental, feminismos e pluralidades afetivas legitima a escrita vulnerável, contar a própria história deixou de ser mero exercício de memória para se tornar potência política e comunitária.

Entretanto, nem toda autobiografia jovem é performativa, muitas são travessias íntimas que buscam nomear o indizível. É nesse território que se insere a obra de Mari Binhote  “Em Todas as vezes que eu me afoguei, em mim mesma”, a autora usa o que o próprio livro anuncia: “entre ondas altas, silêncio e respiros, Mari Binhote mergulha no que mora fundo demais para ser dito em voz alta.” São poemas que falam de se perder e, ainda assim, encontrar um caminho de volta, sobre afogar e emergir, amar e reaprender a respirar. A obra funciona como um mapa afetivo para quem já sentiu “o peso da própria maré e mesmo assim continuou nadando.”

Mari Binhote, 22 anos, nascida no Rio de Janeiro, traz à escrita uma biografia que já diz muito sobre seus recortes: graduanda em Letras e profissional de roteiro, cresceu entre livros, músicas e filmes que lhe ensinaram “o que a água nem sempre diz”. Filha de quem lhe mostrou o amor antes da memória, ela escreve para acompanhar as marés internas, entendendo que o corpo também é oceano e que algumas perguntas só se respondem no silêncio do fundo. Em sua prosa poética, breve, cortante e líquida, a autora encarna o novo protagonismo juvenil, a escrita como resistência, cuidado e possibilidade de reencontro.

O boom de autobiografias jovens, exemplificado por livros como o de Mari, aponta para uma literatura menos preocupada com a perfeição narrativa e mais interessada em testemunhar estados de ser. Para leitores, isso significa acesso a relatos que normalizam a vulnerabilidade, para o mercado editorial, um convite a formatos experimentais e a vozes plurais. E, talvez, uma lição essencial: narrar-se é também um exercício de respirar, um gesto que, embora íntimo, encontra no compartilhamento uma forma de sobrevivência e de reencontro. Como alguém da própria página lembra: “você acertou quando disse que eu me afogaria em mim mesma. O que é irônico, já que foi você quem me jogou no mar…”

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