Mais de 3 mil pessoas assistiram à curta temporada no Rio de “Os Irmãos Karamazov” no Teatro Carlos Gomes

Montagem dirigida por Marina Vianna e Caio Blat encerra temporada carioca com forte adesão do público

por Redação
Irmãos Karamazov - foto: Wilton Montenegro

Encerrada no último sábado (18), a temporada carioca do espetáculo Os Irmãos Karamazov no Teatro Carlos Gomes reuniu mais de 3 mil espectadores, consolidando o sucesso de público da montagem no Rio de Janeiro ao longo de toda a curta temporada. Com direção de Marina Vianna e Caio Blat, direção de produção de Maria Duarte e produção artística de Luisa Arraes, o espetáculo apresentou uma leitura contemporânea, coletiva e acessível do romance de Fiódor Dostoiévski, preservando sua densidade filosófica, moral e humana. Considerada por Sigmund Freud uma das maiores obras da história da literatura, a narrativa foi encenada de forma direta e próxima do público, com forte impacto emocional.

A encenação concentra a narrativa nos dias que antecedem e sucedem o crime central da trama, imprimindo intensidade e urgência à experiência cênica. Embora hoje associado ao cânone erudito, Dostoiévski foi um autor popular, e Os Irmãos Karamazov foi publicado originalmente como folhetim, em capítulos de jornal, dialogando amplamente com os leitores de seu tempo.

A adaptação resulta de dez anos de estudo de Caio Blat e Manoel Candeias sobre o romance, somados a quatro meses de um intenso processo criativo com o elenco e a equipe artística. A montagem trabalha a polifonia característica da obra, conceito desenvolvido por Mikhail Bakhtin, em que múltiplas vozes, perspectivas e conflitos coexistem sem hierarquia moral. Em cena, essa polifonia se manifesta por meio do coro, da sobreposição de vozes, da fragmentação narrativa e da música ao vivo integrada à dramaturgia, criando uma experiência imersiva que aproxima o clássico da sensibilidade contemporânea sem esvaziar suas contradições.

Desde a concepção da montagem, a produção propôs a concepção de um espetáculo que incorporasse a acessibilidade como princípio dramatúrgico e estético. Artistas intérpretes de Libras integraram o elenco em cena, compondo a narrativa e a linguagem cênica do espetáculo. A acessibilidade foi pensada desde o início do processo criativo, ampliando o alcance da obra e reafirmando o compromisso com um teatro verdadeiramente inclusivo.

O elenco reuniu 13 artistas com diferentes trajetórias, corpos e funções em cena, alternando atuações individuais e coletivas: Nina Tomsic, Pedro Henrique Muller, Sol Miranda, Priscilla Rozenbaum, Catharina Caiado, Lucas Oranmian, Arthur Braganti, Thiago Rebello, Juliete Viana, Maria Luiza Aquino, Sheila Martins, Sofia Badim, além de Caio Blat, que também atua.

O figurino e a direção de arte, assinados por Isabela Capeto, dialogaram com a ideia de coletividade e atemporalidade por meio de peças artesanais, sustentáveis e predominantemente brancas, funcionando como suporte simbólico para a multiplicidade de vozes em cena. O trabalho foi reconhecido com o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Figurino e recebeu indicação ao Prêmio Shell na mesma categoria. O espetáculo também foi premiado pela performance de Babu Santana como Melhor Ator Coadjuvante.

A equipe criativa contou ainda com direção de movimento de Amália Lima, desenho de luz de Gustavo Hadba e Sarah Salgado, cenografia de Moa Batsow e coordenação de acessibilidade criativa de Raíssa Couto. Após a circulação nacional do espetáculo, que passou por teatros de São Paulo, capital e interior, e de Minas Gerais, com sessões esgotadas e forte repercussão de público e crítica, a temporada no Teatro Carlos Gomes foi realizada de forma independente. A diretora de produção, Maria Duarte, comentou sobre o processo:

“Foi desafiador, porque temos uma produção complexa e custosa, um elenco de 13 artistas em cena e música ao vivo. O que me moveu foi o desejo de encontrar caminhos possíveis de fazer teatro de forma independente e acessível no Brasil. Um desejo político. Chegamos ao final da temporada com ingressos esgotados e uma alegria imensa por essa realização! Que só foi possível com o engajamento do elenco e toda a equipe, a participação ativa do público na bilheteria, o apoio da imprensa, as parcerias e, principalmente, com a possibilidade de estarmos em cartaz num equipamento cultural público, como o Teatro Carlos Gomes.”

O sucesso da nova temporada no Rio reafirma a potência de Os Irmãos Karamazov como um espetáculo que alia rigor artístico, experimentação estética, acessibilidade e diálogo direto com os dilemas éticos, políticos e humanos do presente, consolidando sua trajetória como uma das montagens de maior destaque da cena teatral recente.

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