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Maria Martins: desejo imaginante

por Redação
Maria Martins - L'impossible - 1940 - Col. Itaú SP

A Casa Roberto Marinho e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) apresentam a retrospectiva Maria Martins: desejo imaginante, que abre sua temporada carioca no dia 12 de março. Com curadoria de Isabella Rjeille e curadoria adjunta de Fernanda Lopes, a mostra reúne cerca de 40 obras (esculturas, gravuras, desenhos e pinturas) produzidas entre as décadas de 1940 e 1950, além de documentos, publicações e fotografias que contextualizam a trajetória da artista mineira, no Brasil e no exterior.

“É a maior exposição dedicada à obra de Maria no Rio de Janeiro, desde sua retrospectiva no Museu de Arte Moderna em 1956”, revela Fernanda Lopes. “É muito interessante mostrar seu trabalho em 2022, ano em que se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna. Ela, como Goeldi e Flavio de Carvalho, representa outra ideia dos trópicos, um moderno mais sombrio que subverte o que é dócil e agradável aos olhos do espectador. Não há em sua obra o suposto verniz cordial de um Brasil solar”.

Maria de Lourdes Martins Pereira e Souza, nascida em 1894, em Campanha (MG), marcou presença na história da arte moderna brasileira e no panorama do surrealismo internacional. Escultora, desenhista, gravadora e escritora, teve seu trabalho reconhecido tardiamente no Brasil. Grande parte de sua carreira foi desenvolvida no exterior, enquanto acompanhava as atividades de seu segundo marido, o embaixador Carlos Martins, em diversas partes do mundo.

A poética libidinal de Maria, que abordou questões relacionadas ao erotismo e a uma ideia de feminino ameaçador, desafiou a moralidade da época. A artista enfrentou a rejeição pequeno-burguesa a seu sucesso e chegou a ser classificada como obscena pela crítica especializada. Intitula a exposição a tradução da obra Désir imaginant, cujo paradeiro é desconhecido e sobre a qual a artista escreveu, em 1948, a epígrafe: “É preciso que o desejo tenha muita imaginação para poder suportar-se a si mesmo”.

De acordo com Isabella Rjeille, “ao colocar o desejo como sujeito da ação de imaginar, Martins enfatizou seu potencial criativo, transformador e subversivo. Assim, o desejo pode ser entendido como uma força motriz que atravessa toda sua produção, atribuindo agência a um sentimento muitas vezes silenciado, sobretudo quando quem deseja e o expressa é uma mulher”.

Sobre sua obra, Fernanda Lopes escreveu: “Maria Martins sabia que suas deusas e seus monstros sempre pareceriam sensuais e bárbaros para a maioria… Lidavam com ‘uma sexualidade que mordia, invasiva, que comia pedaços das pessoas’ (Miguel Rio Branco). Usando um termo cunhado pelo surrealista André Breton, um de seus interlocutores em Nova York, em texto de 1928, a beleza em suas esculturas era convulsiva, ou não seria beleza. Naquele momento, e durante muito tempo depois, ela não era o que se esperava de uma mulher, especialmente da ‘mulher do embaixador’ em uma sociedade conservadora. E sua obra, pelo menos dentro do Brasil, também não era o que se queria mostrar como arte brasileira”.

Foi nos anos 1940, após mudar-se para os Estados Unidos, que ela se tornou mais conhecida como artista e intermediadora cultural, obtendo rápida inserção no circuito internacional: “O fato de ter desenvolvido grande parte de seu trabalho no exterior a impediu de participar ativamente dos movimentos modernistas brasileiros. Porém, Martins não deixou de realizar suas leituras e contribuições únicas a respeito de certa visualidade nacional, o que acabou lhe rendendo a alcunha de escultora dos trópicos”, comenta Rjeille.

Lauro Cavalcanti, diretor da Casa Roberto Marinho, ressalta que Maria Martins é uma artista que se destaca na Coleção do patrono do instituto, e relembra que seu trabalho nem sempre foi apreciado: “Restrições eram-lhe nutridas pela nata da crítica e por destacados pintores. A primeira lamentava que sua arte não fosse claramente ligada a uma corrente, de preferência geométrica; já os mestres das tintas, à procura de tons locais, rejeitavam o que não fosse exclusivamente ligado a termos nacionais. Os ‘defeitos’ então alegados na obra da escultora seriam, hoje, considerados virtudes: a expressão singular de sentimentos, a marca absolutamente feminina e a não evidência de pertencimento a uma corrente específica”.

Desejo imaginante divide-se em seis núcleos que abordam como a artista articulou, ao longo de sua produção, os diversos imaginários acerca do Brasil e dos trópicos. A exposição inclui legendas expandidas das obras, oferecendo informações acerca da trajetória da artista e apresentando novas leituras de seu trabalho. Encerra a mostra uma completa cronologia ampliada até os dias de hoje.

Confira os seis núcleos temáticos que orientam a curadoria:

Duplos impossíveis 

Uma das séries de esculturas mais emblemáticas da produção de MM são as suas diferentes versões de O impossível. Existem ao menos quatro versões dessa peça, produzidas entre 1944 e 1946, que contam com elementos que se repetem: todas elas representam duplas compostas por uma figura feminina e uma masculina. Há, nas obras reunidas neste núcleo, a impossibilidade de encaixe entre as formas, de comunicação entre opostos; porém, há também o desejo pela união, pelo encontro. As relações de dualidade entre amor e morte, desejo e destruição, capazes de existir entre o feminino e o masculino são temas recorrentes na obra de Martins desde as suas primeiras esculturas inspiradas nas temáticas amazônicas (como Iacy, Cobra grande, Uirapirú).

Imaginários amazônicos

Em 1941, Maria estabeleceu seu ateliê em Nova York e começou a produzir as primeiras esculturas em bronze. Algumas peças tinham como referência mitologias amazônicas de origem indígena, cenas de rituais e figuras inspiradas nas religiões de matriz africana. As esculturas reunidas neste núcleo representam figuras humanas que se fundem com a natureza que as rodeia, um aspecto que será trabalhado pela artista ao longo de toda a sua trajetória. Os títulos fazem alusão às mitologias indígenas ou sugerem diferentes situações de rituais. O repertório da artista sobre a Amazônia era composto por textos e imagens que circulavam na época, pois a artista nunca visitou a região. Há nessas obras, portanto, um coeficiente ficcional: cada representação carrega em si a leitura e a invenção de Martins a respeito destas mitologias e destes “trópicos”.

Como uma Liana

As lianas, cipós ou trepadeiras são plantas características de florestas tropicais, que crescem sobre as árvores e competem pela luz do sol, água e nutrientes do solo. Essas plantas são capazes de envolver árvores maiores e vão, aos poucos, dominando-as e matando-as. Neste conjunto de obras, a liana, que antes se encontrava emaranhada sobre as figuras humanas das obras “amazônicas” de Martins, reaparece aqui completamente fundida aos seus corpos ou até mesmo como referência formal para trabalhos mais abstratos que a artista desenvolveria mais tarde. Essa metamorfose fica evidente no desenho As três Graças (1945), que sugere a transformação de uma mulher em um ser híbrido, parte humano e parte vegetal. Este desenho precede a escultura Comme une liane [Como uma liana] (1946), que dá nome ao núcleo e cuja figura humana encontra-se contorcida como um cipó. 

Por muito tempo acreditei ter sonhado que era livre

O título deste núcleo é apropriado de um dos bronzes da artista de 1945 – J’ai cru avoir longtemps rêvé que j’étais libre [Por muito tempo acreditei ter sonhado que era livre] (1945-46). Desta obra, restou apenas o registro que se encontra na sala Maria Martins: Vida e Contexto. Este bronze retratava uma mulher cujo corpo contorcido libertava-se de uma densa vegetação. Apresentado em 1946 na individual de Martins na Valentine Gallery em Nova York, essa e outras peças foram compreendidas pela crítica como um gesto da artista de finalmente ter se libertado da “selva amazônica”. Este trabalho é resgatado aqui por trazer em seu título a temática da busca pela liberdade, um assunto recorrente em diversos trabalhos reunidos nesta exposição e textos da artista ao longo de sua carreira. 

Mitologias pessoais

Em meados dos anos 1940, ainda produzindo em contexto estadunidense, as esculturas de Martins ganham maiores dimensões e novos tratamentos formais. As peças produzidas a partir daí recebem títulos mais “literários” e se libertam de uma visualidade que poderia ser facilmente encaixada dentro de certo imaginário sobre os trópicos. Em um poema de autoria da artista intitulado Explication [Explicação] (1946), presente neste núcleo, Maria Martins apelida suas esculturas de “minhas deusas e meus monstros”, criando, assim, suas próprias mitologias baseadas em figuras híbridas, fantásticas ou monstruosas. 

O sexto núcleo é uma cronologia ampliada até os dias de hoje.

SERVIÇO:

Maria Martins: desejo imaginante
Abertura pública: 12 de março de 2022, às 12h
Encerramento:

Instituto Casa Roberto Marinho
Rua Cosme Velho, 1105 – Rio de Janeiro
Tel: (21) 3298-9449

Visitação: terça a domingo, das 12h às 18h (entrada até às 17h15)
(Aos sábados, domingos e feriados, a Casa Roberto Marinho abre a área verde e a cafeteria a partir das 9h.)

Ingressos: R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada)
Às quartas-feiras, a entrada é franca.
Aos domingos, “ingresso família” a R$ 10 para grupos de quatro pessoas.
A CRM respeita todas as gratuidades previstas por lei

Link para ingressos:
http://www.casarobertomarinho.org.br 

Estacionamento gratuito para visitantes, em frente ao local, com capacidade para 30 carros.

A Casa Roberto Marinho é acessível a portadores de deficiências físicas.

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