Mostra Todd Haynes ocupará o CCBB Rio de Janeiro de 14 de janeiro a 9 de fevereiro com 23 filmes, debates, sessões comentadas e curso gratuito

Retrospectiva gratuita reúne 13 filmes do cineasta e 10 obras em diálogo com sua filmografia, incluindo cópias restauradas e inéditas no Brasil, obras importantes do cinema queer e títulos com atuações icônicas de Julianne Moore, Cate Blanchett, Natalie Portman e Rooney Mara

por Redação
“Longe do Paraíso” (2002): oportunidade para ver no cinema um dos maiores clássicos do diretor

O que se esconde por trás das aparências? Que desejos, conflitos e tensões habitam as superfícies aparentemente estáveis da vida cotidiana? Essas são algumas das perguntas que atravessam a obra do cineasta estadunidense Todd Haynes e que guiam a Mostra Todd Haynes, com curadoria de Carol Almeida e Camila Macedo e idealização, coordenação geral e produção executiva de Hans Spelzon, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, de 14 de janeiro a 9 de fevereiro, com entrada gratuita. A mostra conta com o patrocínio do Banco do Brasil, realização do Centro Cultural Banco do Brasil e do Governo Federal, apoio institucional do Goethe-Institut e produção da Caprisciana Produções. Em circulação, ainda vai passar pelo CCBB São Paulo e CCBB Brasília.

Ao longo de quase cinco décadas de carreira, Haynes consolidou-se como um dos nomes centrais do cinema independente contemporâneo, um dos pioneiros do New Queer Cinema e referência na reinvenção do melodrama, do musical/POP e das narrativas centradas em personagens femininas. A Mostra apresentará 23 filmes no total, sendo 13 dirigidos por Haynes e 10 de outros realizadores em diálogo com sua obra, além de mesas de debate, sessões comentadas, ações de acessibilidade, um curso em dois encontros e o lançamento de um catálogo que reúne textos de pesquisadoras e pesquisadores brasileiros, incluindo uma tradução de um artigo de Mary Ann Doane (referência dos estudos fílmicos feministas), além de ficha técnica das obras, uma verdadeira fortuna crítica inédita sobre Haynes no Brasil. O catálogo será disponibilizado em versões impressa e digital.

Vencedor de importantes prêmios internacionais, como o Grande Prêmio do Júri em Sundance (1991), o Teddy Award em Berlim (1991), o Grande Prêmio do Júri em Veneza (2007) e a Palma Queer em Cannes (2015), Todd Haynes também foi indicado ao Oscar pelo roteiro de “Longe do Paraíso” (2002). Seu maior sucesso comercial, “Carol” (2015), recebeu seis indicações ao Oscar e se tornou um marco do cinema contemporâneo.

Clássicos, cópias inéditas e filmes raros

A Mostra Todd Haynes oferecerá ao público uma oportunidade rara de assistir na sala de cinema a obras fundamentais, muitas delas inéditas ou recentemente restauradas. Entre os destaques está “Assassinos: Um Filme sobre Rimbaud” (1985), segundo curta-metragem de Haynes, apresentado a partir de uma nova restauração, ao lado de outros títulos do início da carreira do cineasta.

“Reunir esses filmes é também reconhecer a existência de um olhar queer sobre o cinema, um olhar que se constrói na relação com imagens que desafiam normas, afetos e modos de ver”, afirma a curadora Carol Almeida, que completa: “São obras que ajudaram a formar esse repertório, muitas vezes à margem dos circuitos tradicionais, e que hoje podem ser revisitadas em toda a sua força histórica, política e estética”.

A retrospectiva contará com 13 filmes do diretor que vão do experimentalismo à consagração internacional: “O Suicídio” (1978), “Assassinos: Um Filme sobre Rimbaud” (1985), “Veneno” (1991), “Dottie Leva Palmadas” (1993), “Mal do Século” (1995), “Velvet Goldmine” (1998), “Longe do Paraíso” (2002), “Não Estou Lá” (2007), “Carol” (2015), “Sem Fôlego” (2017), “O Preço da Verdade” (2019), “The Velvet Underground” (2021) e “Segredos de um Escândalo” (2023). Ao longo desse percurso, destacam-se atuações que se tornaram referências, como as colaborações constantes com Julianne Moore, as performances icônicas de Cate Blanchett em “Não Estou Lá” e “Carol” e a consagração de Rooney Mara como Melhor Atriz no Festival de Cannes por “Carol”.

Em diálogo com essa filmografia, a Mostra apresenta 10 filmes de outros realizadores, escolhidos por sua relevância histórica e estética: “Jeanne Dielman” (1975, de Chantal Akerman), marco do cinema feminista; “O Medo Devora a Alma” (1974, de Rainer Werner Fassbinder), “Tudo o Que o Céu Permite” (1955, de Douglas Sirk), ambos referências do melodrama; “Uma Mulher Sob Influência” (1974, de John Cassavetes), expoente do cinema independente estadunidense; “Desencanto” (1945, de David Lean), clássico do cinema romântico britânico; “Canção de Amor” (1950, de Jean Genet), precursor do cinema homoerótico, além de ser o único filme dirigido pelo escritor Jean Genet; “Peggy e Fred no Inferno: o prólogo” (1984, de Leslie Thornton); “Vento Seco” (2020, de Daniel Nolasco); “Jollies” (1991, de Sadie Benning) e “Primavera” (2017, de Fábio Ramalho).

“Ao colocar esses filmes em relação, a mostra propõe pensar o cinema como um campo de atravessamentos, de linguagem, de política e de sensibilidade. Mais do que influências diretas, o que emerge é uma constelação de obras que ajudam a entender como certas formas de ver e sentir o mundo foram se construindo ao longo do tempo”, diz Camila Macedo.

Ao longo dessa trajetória, a Mostra também evidencia a relação profunda de Todd Haynes com a música e a cultura POP, seja na investigação de ícones e mitologias musicais, como em “Velvet Goldmine”, “Não Estou Lá” e no documentário “The Velvet Underground”, seja na maneira como a música estrutura emoções, ritmos e atmosferas em seus filmes, Haynes mobiliza o universo musical como ferramenta narrativa e política.

Outro ponto que será investigado pelos filmes e ações formativas é o melodrama presente na filmografia do diretor e a relação com os melodramas brasileiros.

“É interessante pensar que, apesar da popularidade no Brasil, a telenovela e as abordagens melodramáticas costumam ser encaradas como obras de natureza menor. Mesmo no cinema, ainda é relativamente comum que se encare o melodrama como uma forma de estatuto inferior em termos artísticos. Não à toa, muito associada ao público feminino. Discutir os usos e reinvenções do melodrama a partir de um cineasta da envergadura de Haynes torce esses enquadramentos, lida com uma sensibilidade que escapa a dicotomias simplistas entre corpo e intelectualidade, entre afeto e pensamento”, acrescenta Carol Almeida.

Convidados, debates e formação

A programação da Mostra Todd Haynes se expande para duas mesas de debate, diversas sessões comentadas e um curso, reunindo pesquisadoras e pesquisadores, críticos e realizadores para aprofundar reflexões sobre cinema queer, melodrama, representação feminina e linguagem audiovisual.

A mesa “Donas de casa encarceradas nas estratégias melodramáticas de Todd Haynes” será realizada no dia 22 de janeiro (quinta-feira), às 18h30, lançando um olhar atento sobre a recorrência e a reinvenção das figuras femininas e da domesticidade em sua filmografia. O debate contará com a presença de Francine Barbosa, roteirista; e de Dri Azevedo, pesquisadore.

“A ideia dessas atividades é criar um espaço de escuta e de troca, em que a obra de Haynes possa ser pensada não como um monumento, mas como um cinema vivo, em diálogo com questões urgentes do presente e com outras formas de fazer e pensar o audiovisual”, afirma Carol Almeida.

Já a mesa “O legado de Todd Haynes para os novíssimos cinemas queer”, que acontece no dia 31 de janeiro (sábado), às 16h45, propõe discutir as reverberações de sua obra em uma nova geração de cineastas e práticas contemporâneas, com a participação de Vinicios Ribeiro e Jocimar Dias Jr.

Além dos bate-papos, também haverá sessões comentadas, atividades de caráter mais intimista que propõem um bate-papo com o público, compartilhando leituras, contextos e reflexões a partir da obra exibida. Entre os convidados, estão Mariana Baltar (“Longe do Paraíso”, na abertura, dia 14 de janeiro, às 18h15), Denilson Lopes (“Velvet Goldmine”, dia 17 de janeiro, às 15h30), Daniel Nolasco (que apresentará “Vento Seco”, dia 17 de janeiro, às 18h45, além de comentar “O Suicídio”, “Assassinos: Um Filme sobre Rimbaud” e “Pegg e Fred no Inferno” dia 8 de fevereiro, às 17h), João Luiz Vieira (“Canção de Amor” e “Veneno”, dia 23 de janeiro, às 17h30), Carol Almeida (os filmes “Jollies”, “Dottie Leva Palmadas” e “Primavera”, dia 31 de janeiro, às 18h30) e Kariny Martins (“Segredos de Um Escândalo”, dia 7 de fevereiro, às 17h).

A proposta formativa da Mostra inclui ainda o curso “Uma leitura da in/visibilidade lésbica a partir de Carol, de Todd Haynes”, realizado em dois encontros, nos dias 7 e 8 de fevereiro (sábado e domingo), às 10h, que parte de um dos filmes mais emblemáticos do cineasta para pensar os códigos do cinema hollywoodiano e os processos de in/visibilidade lésbica na história do cinema narrativo, ampliando o diálogo entre a obra de Haynes, a crítica feminista e o cinema brasileiro contemporâneo. O curso será ministrado por Alessandra Brandão e Ramayana Lira.

Catálogo inédito e circulação de pensamento

O catálogo com textos inéditos de pesquisadoras e pesquisadores brasileiros e estrangeiros dedicados à obra do diretor, pretende ampliar o debate em torno de sua filmografia nos estudos de cinema, gênero e linguagem.

“Todos os textos são inéditos, incluindo a tradução de um texto nunca antes publicado em português, escrito por Mary Ann Doane, professora emérita da University of California, Berkeley (UC Berkeley), pesquisadora fundamental da teoria feminista do cinema e ex-professora de Todd Haynes. A publicação funciona como uma extensão da mostra e como uma ferramenta de reflexão duradoura”, destaca Camila Macedo.

Exemplares impressos também serão distribuídos ao público na proporção de uma unidade a cada cinco ingressos de filmes.

“Ainda que o cinema de Todd Haynes atravesse preocupações estéticas muito distintas ao longo do tempo, existe algo que percorre toda a sua obra de forma intensa: uma crítica sofisticada às máscaras sociais. São filmes atentos às superfícies, às fachadas da vida cotidiana, e ao que insiste em se revelar por trás delas”, conclui Carol Almeida.

A Mostra Todd Haynes contará ainda com uma sessão com recursos de acessibilidade: “Carol” com audiodescrição, legendagem descritiva e tradução em Libras, ampliando o acesso do público às obras e aos debates propostos pela programação. As mesas de debate também terão tradução simultânea em Libras.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA POR DIA:

14/01/2026 (quarta)

18h30 – “Longe do Paraíso” + Sessão comentada com Mariana Baltar – 14 anos

15/01/2026 (quinta)

18h- “Não Estou Lá” – 12 anos

16/01/2026 (sexta)

18h30 – “Carol” – 14 anos

17/01/2026 (sábado)

15h30 – “Velvet Goldmine” + Sessão comentada com Denilson Lopes – 18 anos

18h45 – Sessão apresentada com Daniel Nolasco: “Vento Seco” – 18 anos

18/01/2026 (domingo)

16h – “Tudo o que o Céu Permite” – 12 anos

18h – “Segredos de um Escândalo” – 16 anos

19/01/2026 (segunda)

18h30 – “The Velvet Underground” – 16 anos

21/01/2026 (quarta)

17h15 – “Jeanne Dielman” – 16 anos

22/01/2026 (quinta)

18h30 – Debate 1: Donas de casa encarceradas nas estratégias melodramáticas de Todd Haynes. Com Francine Barbosa, roteirista; e Dri Azevedo, pesquisadore (tradução simultânea em LIBRAS). – 16 anos

23/01/2026 (sexta)

17h30 – “Canção de Amor” + “Veneno” + Sessão comentada com João Luiz Vieira – 18 anos

24/01/2026 (sábado)

16h45 – “O Medo Devora a Alma” – 16 anos

18h45 – “Longe do Paraíso” – 14 anos

25/01/2026 (domingo)

15h30 – “Uma Mulher Sob Influência” – 16 anos

18h15 – “Mal do Século” – 14 anos

26/01/2026 (segunda)

17h30 – “Carol” – Sessão com recursos de acessibilidade (audiodescrição, legendagem descritiva e tradução em LIBRAS) + Conversa com a curadoria (tradução simultânea em LIBRAS) – 14 anos

28/01/2026 (quarta)

18h15 – “O Preço da Verdade” – 12 anos

29/01/2026 (quinta)

18h – “Mal do Século” – 14 anos

30/01/2026 (sexta)

18h15 – “Não Estou Lá” – 12 anos

31/01/2026 (sábado)

16h30 – DEBATE 2: O legado de Todd Haynes para os novíssimos cinemas queer. Com Vinicios Ribeiro e Jocimar Dias Jr. (tradução simultânea em LIBRAS). – 16 anos

18h15 – “Jollies”, “Dottie Leva Palmadas” e “Primavera” + Sessão comentada com Carol Almeida – 16 anos

01/02/2026 (domingo)

16h – “The Velvet Underground” – 16 anos

18h15 – “Velvet Goldmine” – 18 anos

02/02/2026 (segunda)

18h30 – “Sem Fôlego” – 10 anos

04/02/2026 (quarta)

18h30 – “Desencanto” – 14 anos

05/02/2026 (quinta)

18h30 – “Canção de Amor” + “Veneno” – 18 anos

06/02/2026 (sexta)

18h30 – “Carol” – 14 anos

07/02/2026 (sábado)

10h – Curso – Primeiro encontro: Uma leitura da in/visibilidade lésbica a partir de Carol, de Todd Haynes – 16 anos

17h – “Segredos de Um Escândalo” + Sessão comentada com Kariny Martins – 16 anos

08/02/2026 (domingo)

10h – Curso – Segundo encontro: Uma leitura da in/visibilidade lésbica a partir de Carol, de Todd Haynes – 16 anos

17h – “O Suicídio”, “Assassinos: Um Filme sobre Rimbaud” + Sessão comentada com Daniel Nolasco – 16 anos

09/02/2026 (segunda)

18h15 – “O preço da verdade” – 12 anos

FICHA TÉCNICA:

  • Curadoria: Carol Almeida e Camila Macedo
  • Idealização, coordenação geral e produção executiva: Hans Spelzon
  • Produção: Caprisciana Produções
  • Apoio Institucional: Goethe-Institut
  • Realização: Centro Cultural Banco do Brasil e Governo Federal
  • Patrocínio: Banco do Brasil

AS CURADORAS:
Carol Almeida é pesquisadora, professora e curadora de cinema. Doutora no programa de pós-graduação em Comunicação na UFPE, com pesquisa centrada no cinema contemporâneo brasileiro. Faz parte da equipe curatorial do Festival Olhar de Cinema/Curitiba, da Mostra de Cinema Árabe Feminino e da Mostra que Desejo, além de ter participado da equipe curatorial de mostras e festivais como Recifest, festival de cinema queer do Recife, For Rainbow, festival de cinema queer em Fortaleza, da equipe de seleção do Forumdoc, em Belo Horizonte e da Mostra Tarrafa, em Maceió. Membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (Socine).

Camila Macedo é professora do Bacharelado em Cinema e Audiovisual e do Mestrado em Cinema e Artes do Vídeo da Universidade Estadual do Paraná. Atua nas áreas de ensino, pesquisa e curadoria, com especial interesse nas interfaces entre o cinema e os estudos de gênero e sexualidade. Integra, desde 2018, a curadoria do festival Olhar de Cinema (Curitiba), tendo também passagem pelas equipes de outras mostras e festivais, como o Festival de Brasília (2022; 2024). Colaborou na organização de retrospectivas como a “Mostra Paula Gaitán de Cinema Experimental” (SESI PR, 2019), “Su Friedrich e Outras imagens para o invisível” (Olhar de Cinema, 2022), “Sessão Retrospectiva: Rita Moreira e Norma Bahia Pontes” (FIDÉ Brasil, 2022) e “Focus Brésil: Parcourir Lavenir” (RIDM, 2022).

CCBB RJ:

Inaugurado em 12 de outubro de 1989, o Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro marca o início do investimento do Banco do Brasil em cultura. Instalado em um edifício histórico, projetado pelo arquiteto do Império, Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, é um marco da revitalização do centro histórico da cidade do Rio de Janeiro. São 36 anos ampliando a conexão dos brasileiros com a cultura com uma programação relevante, diversa e regular nas áreas de artes visuais, artes cênicas, cinema, música e ideias. Quando a cultura gera conexão ela inspira, sensibiliza, gera repertório, promove o pensamento crítico e tem o poder de impactar vidas. A cultura transforma o Brasil e os brasileiros e o CCBB promove o acesso às produções culturais nacionais e internacionais de maneira simples, inclusiva, com identificação e representatividade que celebram a pluralidade das manifestações culturais e a inovação que a sociedade manifesta. Acessível, contemporâneo, acolhedor, surpreendente:  pra tudo que você imaginar.

SERVIÇO:

Mostra Todd Haynes

  • Quando: de 14 de janeiro de 2026 a 9 de fevereiro de 2026
  • Entrada gratuita
  • Ingressos disponíveis a partir das 9h do dia da sessão/atividade na bilheteria física ou site do CCBB – bb.com.br/cultura
  • Consulte a classificação indicativa de cada sessão no site e nas redes sociais do CCBB RJ

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