O Pinguim e a montanha

por Luiz Costa
Pinguim

A cena de um pinguim que vai na contramão “natural” de seus instintos, extraída do documentário Encounters at the End of the World (2007) de Werner Herzog vem alcançando destaque nas redes, gerando comentários diversos e vários tipos de interpretações.

O pinguim-de-adélia é por natureza, uma criatura de comunidade, de instinto e de propósito. Sua vida é uma dança sincronizada pela sua sobrevivência, que já vem sendo ensaiada e executada a muito tempo: caçar no oceano, procriar na colônia e manter seus padrões. 

Mas o que isso tem haver conosco, com nossas “crises existenciais”, com nossas duvidas e perguntas que atormentam a alma?

Werner Herzog, não estava interessado na “verdade do contador” ou apenas se satisfazendo com o fato simples e natural que o pinguim esteja simplesmente desorientado. Quando pergunta: “Mas porquê?”  Ele mergulha em uma verdade mais profunda, alcançada através da poesia e da imaginação de sua narrativa, transformando, talvez um evento biológico em uma profunda meditação filosófica e com isso, muitos foram forçados a pensar, e se eu fosse esse pinguim?

 Quando ele chama o pinguim de deranged termo em inglês que descreve alguém insano, alguém mentalmente instável, alguém que é incapaz de agir de forma logica, simplesmente nos fisga ao projetar a nossa própria consciência na criatura. Afinal, quem nunca se sentiu assim. “A beira de um ataque de nervos”, com um sentimento que aquele lugar não é mais o seu, com perguntas que não se tem resposta ou uma simples comichão de lagarta para evoluir e bater assas. 

A jornada do pinguim é uma perfeita ilustração do absurdo de Albert Camus. O Absurdo nasce do confronto entre a busca humana por significado e o silêncio indiferente do universo, você encarna o herói absurdo, um Sísifo, empurrando sua própria escolha fatal contra a montanha da lógica, e nesse ato de aceitação consciente, ele encontra uma forma de liberdade, quebrando o ciclo natural da sua vida para afirmar a própria escolha em um ato de liberdade que ao mesmo tempo nos leva a uma questão, que preço estamos dispostos a pagar?

Devemos encarnar este herói silencioso, não com uma rebeldia cega e sem sentido, mas em seu senso destemido de direção. A “morte” para qual ele caminha pode ser interpretada como o sacrifício necessário do nosso “Velho eu”: matar a velha criatura, os modismos, os vieses e tudo que nos impede de evoluir como pessoa, cidadão e ser humano. É a morte dos velhos sentidos, do seguir sem questionar o rumo, a direção.

O pinguim representa o ato de liberdade que entusiasma, o sacrifício que temos que fazer para nos tirar do automatismo, preocupados com padrões de comportamento. Como o de ir a uma exposição de Arte e se preocupar mais em tirar fotos do que em olhar as obras com seus próprios olhos, aderir a opiniões e modismos que nunca fizeram parte dos seus pensamentos e que são contrários às nossas crenças mas profundas, não que isso seja ruim, qualquer situação que te faça pensar e benéfica, mas nunca de forma imposta por algum sistema ou  grupo de pessoas.

A sua jornada é um convite doloroso, mas inspirador: a avançar na nossa própria jornada, marchando e matando simbolicamente o que nos aprisiona, para que o nosso verdadeiro eu, autêntico, verdadeiro e consciente, possa finalmente nascer. Qual é o seu interior? Qual a sua montanha?

É o que você está disposto a fazer para chegar lá?

Isso é uma pergunta que só você pode responder, só você.

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