No dia 29 de outubro, quinta-feira, os alunos da segunda edição da Scuola di Teatro Lucia Cerrone apresentam o espetáculo Nós e Retalhos, às 18h e às 20h30, no Theatro Municipal de Niterói. O curso gratuito de teatro para estudantes da rede pública, idealizado e produzido por Fabrizio Sassi, acontece de março a outubro de 2026, com 49 alunos de nove escolas, na Scuola di Cultura, centro cultural que completa dez anos neste mês.
O projeto é realizado com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SECEC), com patrocínio da Enel Distribuição Rio. As aulas acontecem em turmas de nível básico e intermediário.
Estrutura, professores qualificados mas também apoio com transporte e alimentação para manter o aluno no curso
Os alunos vêm de nove escolas da rede pública: Brasil-China, Cizínio Soares, Baltazar Bernardino, Coluni UFF, Dr. Adino Xavier, Leopoldo Fróes, Dôrval Ferreira, Liceu Nilo Peçanha e David Capistrano. A ida e a volta entre as escolas e a Scuola são garantidas por uma razão prática: em outros cursos gratuitos que o centro ofereceu, muitos alunos faltavam por falta de transporte. O lanche entrou pelo mesmo motivo. Os alunos chegam direto da escola e passam horas em aula, e a alimentação tira mais uma barreira para que continuem.
Para ficar no curso, o aluno precisa manter a frequência na escola regular. Segundo a Scuola, houve estudantes que pensavam em deixar os estudos e permaneceram, e outros, com baixa presença, que voltaram a frequentar as aulas. Na primeira turma, em 2023, a assiduidade escolar dos participantes chegou a 97,5%.
O que se aprende em cena e fora dela
O curso ensina cinco artes do teatro: interpretação, cenário, figurino, iluminação e movimento. Conhecer o que acontece por trás da cena faz parte da formação do ator e abre caminho para quem se interessar pelo lado técnico. Em 2026, o projeto também promoveu cinco oficinas abertas à comunidade: teatro de sombras, de bonecos, de máscaras, gestual e palhaçaria.
Entre os professores estão Marcos Acher (interpretação), Felipe Travassos (movimento), Bruna Falcão (cenografia), Renato Dias, o Badeco (produção musical), Raphael Grampola (iluminação) e Giovanna Sassi, que também deu aulas de cenografia nesta edição. Os figurinos nasceram de uma campanha de doação de calças jeans para vestir 50 pessoas, e o ateliê de costura do mesmo complexo transformou as peças em coletes e outras vestimentas de cena (upcycling), com a ajuda da mãe de uma das alunas.
Nós e Retalhos é dirigido por Marcos Acher e nasceu dos textos, poemas e histórias que os próprios estudantes levaram para as aulas. O título fala desse trabalho de juntar retalhos do que cada um trouxe. Parte do elenco já esteve na primeira edição do curso. “Muitos estão entrando no teatro pela primeira vez pelo palco”, diz Fabrizio. “Para nós, o processo é tão ou mais importante do que o produto final.”
O nome do curso é uma homenagem em vida à diretora, dramaturga e historiadora Lucia Cerrone, a Maninha, que foi por mais de uma década crítica teatral do Jornal do Brasil. Fabrizio conta que ela costuma lembrar, em tom de brincadeira, que está viva. Certa vez, perguntada sobre o sentido do teatro, ela respondeu: “Esse é o lugar onde você pode ser o que quiser. Grandes tragédias, infinitas comédias.”
A primeira edição, em 2023, teve 22 alunos do Colégio Estadual Cizinio Soares Pinto. Em seis meses e 160 horas de aula, eles criaram o espetáculo Sentidos, escrito a partir das próprias experiências e apresentado no Theatro Municipal. “Eu aprendi a me decifrar e decifrar o outro”, escreveu um dos alunos no livreto do projeto. Os participantes receberam certificado e um livreto fotográfico com o registro do processo, documentos que ajudam quem quiser pedir o registro profissional de ator, o DRT. “É um curso livre, mas a gente cria estrutura para que a pessoa possa usar isso para se profissionalizar”, diz a atriz Giovanna Sassi, cofundadora da Scuola.
A Scuola já escreve a terceira edição e pretende inscrevê-la novamente na lei de incentivo. O projeto é uma das práticas ESG do centro cultural. Outras são uma equipe formada somente por mulheres, cerca de 95% da energia do espaço vinda de fonte solar e consultoria de salvaguarda infantil em todos os projetos.
Dez anos de Scuola di Cultura
Na Scuola di Cultura, em Niterói, o mesmo espaço recebe ensaios de teatro, oficinas de palhaçaria, aulas de teatro, música, italiano, costura, tecido acrobático, artes manuais e desenho, além de desenvolvimento de jogos eletrônicos, festivais, apresentações e clubes de literatura e de artes. Em 2026, o centro cultural completa dez anos funcionando, ao mesmo tempo, como teatro, escola, ateliê, laboratório e hub de ações e empresas culturais.
Fundada em 2016 pelo engenheiro e produtor cultural Fabrizio Sassi, a Scuola nasceu de um intercâmbio cultural entre Brasil e Itália, quando a família Sassi representava em Niterói o Istituto Italiano di Cultura. O nome vem dessa origem. Com o tempo, a casa ganhou sede própria, com teatro camerístico, ateliês de costura e desenho, salas multimídia, galpão multiuso e estúdio de ensaio musical. O objetivo sempre foi incentivar a cultura e multiplicar quem a faz.
Os números da década mostram essa variedade. A Scuola tem mais de 2.000 alunos formados e recebeu mais de 40 apresentações teatrais em sua casa própria. A exposição Luzes da Coreia, realizada em parceria com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), levou mais de 100 mil visitantes ao museu entre junho e agosto de 2024, o maior público registrado ali, e foi a primeira mostra da Coreia no Brasil fora do Centro Coreano, em São Paulo.
No teatro musical, Itapuca se tornou o maior espetáculo já produzido na cidade, com mais de 70 especialistas das artes cênicas, três aldeias indígenas, dois centros de pesquisa acadêmica em um único projeto, dois anos de estudo e planejamento e um retorno de mídia estimado em R$ 1,78 milhão. Anne Frank, Fragmentos do Diário, projeto autoral e inédito, nasceu de sete anos de estudo e teve a temporada no Rio de Janeiro prorrogada pela procura.
Um lugar para quem faz arte
A Scuola funciona também como ponto de encontro. Companhias de teatro usam o espaço para ensaiar, e um grupo chegou a ensaiar ali por um ano inteiro. Empresas culturais ocupam o mesmo complexo, como um ateliê de costura, a desenvolvedora de jogos Goiaba Games e um centro de danças, e colaboram nos projetos de cada área. O local recebe cursos livres, oficinas, encontros de empreendedorismo feminino e eventos como o Festival Geek. Em parceria com a Goiaba Games, lançou o jogo Sweet Swipe, cujo personagem ficou em segundo lugar em Concept Design na SBGames. Itapuca ganhou ainda um guia educativo, distribuído às escolas, e sessões gratuitas. Desde 2024, segundo Fabrizio, a Scuola gerou mais de 300 ocupações formais, entre contratações e apoio à abertura de empresas.
Fabrizio, formado em engenharia pela UFF e com mais de 20 anos de Embratel, conta que a ideia do espaço veio de uma lembrança pessoal. Ainda criança, desistiu das aulas de violão depois de uma experiência ruim e deixou de fazer outras coisas por causa dela. “As pessoas têm que ter uma experiência boa. Podem até não gostar, mas depois de uma boa experiência, e não porque a experiência foi ruim.”
A atriz Giovanna Sassi protagonizou e produziu a montagem de Anne Frank e hoje coordena o marketing do centro cultural. “A Scuola precisa se sustentar e ter retorno, mas mas o grande objetivo é social e cultural. E ela funciona por causa disso”, diz. “É muito bonito ver empresas como a Enel em parceria com a Secretaria do Rio para fomentar atividades em prol da população. Editais e patrocínios desse perfil fortalecem a comunidade local”, conclui.
Serviço
Nós e Retalhos, da Scuola di Teatro Lucia Cerrone
Data: quinta-feira, 29 de outubro
Horários: 18h e 20h30
Local: Theatro Municipal de Niterói (Rua Quinze de Novembro, 35, Centro, Niterói)
Classificação indicativa: 10 anos.
Entrada gratuita.
Direção: Marcos Ácher. Assistência de direção: Bianca Sassi e Stefany Guimarães. Coreografia: Felipe Travassos. Cenografia: Marcella Amorelli. Assistência de cenografia: Obra Cultural. Iluminação: Raphael Grampola. Sonoplastia: Renato Badeco. Direção de produção: Scuola di Cultura. Assistência de produção: Luiza Val. Figurino: Bruna Falcão e equipe Fio Criativo. Fotografia: Kleiton Soares. Vídeo: Belona Produções.
Apoio: Prefeitura de Niterói, Fundação de Arte de Niterói e Theatro Municipal de Niterói. Patrocínio: Enel Brasil, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e Governo do Estado do Rio de Janeiro. Realização: Scuola di Cultura.
