Ivanir dos Santos defende representação negra na política em entrevista ao Sopa Cultural

Da abolição à urna: por que a luta por representação negra ainda é necessária?

por Redação
Ivanir dos Santos

A liberdade conquistada com a Abolição não garantiu à população negra igualdade de acesso aos espaços de poder, afirma o Prof. Dr. Ivanir dos Santos em entrevista exclusiva ao Sopa Cultural. Professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ, autor e idealizador da série Resistência Negra, da Globoplay, ele analisa como a exclusão histórica ainda marca a política brasileira. Ao abordar as conquistas do movimento negro, Ivanir defende a participação nas decisões sobre leis, orçamento e políticas públicas como condição para fortalecer a democracia.

Sopa Cultural – Professor Ivanir, quando olhamos para a história do Brasil, a população negra conquistou a liberdade formal com a Abolição, mas não recebeu as mesmas condições de cidadania. O quanto essa exclusão histórica ainda se reflete na política brasileira?

Ivanir dos Santos – A Abolição declarou que aquelas pessoas estavam livres, mas não abriu nenhuma porta. Não distribuiu terra, não criou escola, nem garantiu trabalho. Declarou a liberdade e deixou cada um à própria sorte.

Essa história atravessou gerações e chegou até hoje. Não é algo que ficou no passado. Quando olhamos para o Congresso, para as universidades, para os cargos de direção, para a distribuição de renda, ainda encontramos as marcas daquela decisão.

A desigualdade racial foi construída; e o que foi construído por uma história de exclusão só pode ser enfrentado com política, representação e decisão.

Sopa Cultural – O movimento negro brasileiro tem uma longa trajetória de organização e resistência, muito antes de a pauta racial ganhar espaço institucional. Que papel essa história de mobilização teve na conquista de direitos que hoje parecem naturais?

Ivanir dos Santos – Nenhum desses direitos chegou como presente. Cada um deles foi conquistado por gente que dedicou a vida a uma causa; muitas vezes sem saber se veria o resultado.

O movimento negro fez algo que poucos reconhecem: disse a verdade sobre o racismo quando a sociedade inteira dizia que ele não existia. Lutou por educação, por trabalho, por participação política, por liberdade religiosa, por respeito à nossa história.

A Constituição de 1988, as ações afirmativas, a Lei 10.639, tudo isso tem nome, tem rosto, tem história de luta por trás. Esses direitos não caíram do céu. Foram construídos por pessoas que não aceitaram o lugar que a sociedade havia reservado para elas.

Sopa Cultural – O Brasil passou por diferentes momentos de organização da população negra — dos movimentos do pós-Abolição às lutas do século XX e às mobilizações contemporâneas. O que mudou e o que continua exatamente igual?

Ivanir dos Santos – Mudou muita coisa. Hoje temos mais consciência sobre o racismo, mais instrumentos legais, políticas de ações afirmativas, instituições dedicadas à igualdade racial e uma presença muito maior da população negra nos espaços públicos.

Mas algumas estruturas permanecem. A desigualdade de renda continua sendo racializada; o acesso ao poder continua desigual; a violência atinge de maneira desproporcional a população negra. E ainda existe uma resistência muito grande quando negros reivindicam não apenas direitos, mas poder de decisão.

A principal mudança é que hoje temos mais instrumentos para enfrentar o que antes era tratado como natural. O desafio é transformar essas conquistas em estrutura permanente, para que as próximas gerações não precisem recomeçar a mesma travessia.

Sopa Cultural – Durante muito tempo, falar em racismo e desigualdade racial era tratado como algo secundário no debate político nacional. Quando o senhor percebeu que a disputa por espaço institucional também precisava fazer parte da luta do movimento negro?

Ivanir dos Santos – Eu aprendi isso na própria caminhada. Durante muito tempo, nossa atuação esteve na organização da sociedade, na denúncia das violações, na construção de direitos e isso continua sendo fundamental.

Mas chega um momento em que você percebe: a lei é votada ali. O orçamento é definido ali. As políticas públicas são construídas ali. Se a gente não estiver dentro da sala, a decisão é tomada sem a nossa voz.

Trata-se de levar para dentro das instituições a experiência da militância social de quem historicamente ficou do lado de fora. É construir uma ponte entre o que se vive no território e o que se decide no Parlamento.

Sopa Cultural – O senhor tem uma trajetória de décadas ligada ao movimento negro, à defesa dos direitos humanos e ao enfrentamento da intolerância. Em que momento a militância social percebe que também precisa ocupar o espaço da política institucional?

Ivanir dos Santos – Não existe um momento único. É um aprendizado que acontece na experiência de luta.

Passei décadas trabalhando com movimentos sociais, universidades, comunidades. Em muitos momentos, conquistamos direitos porque havia uma sociedade organizada pressionando o Estado. Mas também aprendi que não basta bater na porta. Às vezes é preciso estar sentado à mesa onde a decisão está sendo tomada.

A política institucional não substitui a mobilização social. Uma precisa da outra. O movimento pode pressionar, propor, denunciar. Quem está no Parlamento pode transformar parte dessas reivindicações em lei, em orçamento, em política pública.

É essa ponte entre a rua e a instituição, entre o que se vive e o que se decide, que me interessa construir.

Sopa Cultural – Há quem diga que a política brasileira é democrática porque todos podem votar e se candidatar. Mas é possível falar em democracia plena quando determinados grupos continuam tendo muito mais dificuldade para chegar aos espaços de decisão?

Ivanir dos Santos – Democracia é o direito de participar da construção das decisões que vão afetar a nossa vida, não apenas de votar.

Se uma parcela enorme da sociedade permanece sub-representada no Parlamento, nos governos, nas universidades e onde o poder econômico está concentrado, existe um problema democrático.

Eu não quero apenas que a população negra seja ouvida na época da eleição. Quero que ela esteja presente quando se discute orçamento, educação, segurança, trabalho, cultura, religião e direitos humanos.

Falar com todos, sem abrir mão de quem mais precisa. Isso significa democracia plena.

Sopa Cultural – O que a história brasileira ensina sobre o risco de deixar a população negra apenas como objeto de políticas públicas, sem que ela esteja também sentada à mesa onde essas políticas são decididas?

Ivanir dos Santos – Ensina que não basta falar sobre a população negra. É preciso garantir que ela participe da construção das decisões que dizem respeito à sua própria vida.

Durante muito tempo, fomos tratados como destinatários de políticas, mas raramente como sujeitos capazes de formulá-las, decidi-las e acompanhá-las.

Quem conhece a desigualdade por experiência própria traz uma perspectiva que nenhum gabinete consegue produzir sozinho. Isso vale para a população negra, para os povos de terreiro, para as periferias, para as mulheres, para a juventude.

A representação muda a qualidade da democracia. Quando a nossa gente está sentada à mesa, outras perguntas são feitas, outras prioridades aparecem, e histórias que permaneceram invisíveis passam a fazer parte das decisões.

Sopa Cultural – Nas eleições de 2026, quase metade das candidaturas é formada por pessoas pretas ou pardas. Podemos considerar isso uma conquista histórica ou ainda estamos muito longe de uma verdadeira mudança na estrutura do poder?

Ivanir dos Santos – É uma conquista importante. Mostra que existe uma disposição cada vez maior da população negra de ocupar os espaços de representação, mas candidatura não é a mesma coisa que poder.

Precisamos olhar para quem consegue se eleger, quem tem recursos para campanha, quem tem tempo de televisão, estrutura partidária e condições reais de disputar. Ainda existe uma distância muito grande entre a presença da população negra na sociedade e a presença que ela alcança nos espaços de decisão.

O crescimento das candidaturas é uma conquista, mas não é o ponto de chegada. A verdadeira mudança acontece quando a presença negra deixa de ser exceção e passa a fazer parte da estrutura do poder.

É preciso ocupar os espaços com sentido. É preciso saber por que se está ali, em nome de quem se fala e para onde se quer levar o país. É isso que diferencia uma candidatura simbólica de uma candidatura que constrói um caminho.

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