O Brasil perdeu na madrugada deste sábado (30/08/2025) um de seus maiores talentos literários. Luis Fernando Veríssimo, aos 88 anos, faleceu no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, vítima de complicações decorrentes de pneumonia grave.
Últimos Momentos e Causa da Morte
O óbito ocorreu às 0h40, sendo oficializado pela filha Fernanda Veríssimo por volta das 3h34. O cronista estava hospitalizado na UTI desde 11 de agosto, enfrentando um quadro delicado de pneumonia que se agravou devido a condições de saúde preexistentes.
Nos últimos anos, Veríssimo batalhou contra múltiplas enfermidades:
- Doença de Parkinson
- Problemas cardíacos (marcapasso implantado em 2016)
- Sequelas de AVC (2021)
- Câncer ósseo na mandíbula (tratado em 2020)
Legado Familiar: Filho de Érico Veríssimo
Nascido em 26 de setembro de 1936, Luis Fernando seguiu os passos literários do pai, Érico Veríssimo, autor da trilogia épica “O Tempo e o Vento”. Deixa viúva Lúcia Helena Massa (casados há 62 anos), três filhos e dois netos.
Carreira Literária: De Revisor a Fenômeno Editorial
Início Profissional no Jornalismo
A trajetória de Veríssimo começou tardiamente, aos 30 anos, como revisor do jornal Zero Hora (1966). Sua primeira coluna, dedicada ao Internacional, foi publicada em 1969, marcando o início de uma carreira jornalística que se estenderia por décadas.
Números Impressionantes da Obra
- Mais de 80 livros publicados
- 5,6 milhões de exemplares vendidos
- Primeira obra: “O Popular” (1973)
Principais Sucessos Editoriais
“O Analista de Bagé” (1981) – Marco inicial de seu sucesso comercial, com primeira tiragem esgotada em uma semana.
“As Mentiras que os Homens Contam” (2000) – Seu maior bestseller absoluto.
“Comédias da Vida Privada” (1994) – Adaptado para série televisiva de grande audiência.
Personagens Inesquecíveis do Universo Verissiano
Ed Mort: O Anti-Herói Detetive
Criado em “Ed Mort e Outras Histórias” (1979), este detetive atrapalhado e eternamente falido tornou-se um ícone da literatura brasileira, parodiando os clássicos investigadores americanos.
O Analista de Bagé: Psicanálise com Humor Gaúcho
Personagem que popularizou a expressão “freudiano barbaridade”, misturando sotaque gaúcho com conceitos psicanalíticos de forma hilariante.
A Velhinha de Taubaté: Crítica Disfarçada
Durante a ditadura militar, esta personagem serviu como veículo sutil de crítica política, demonstrando a inteligência estratégica do autor.
Atuação na Televisão e Mídia
TV Pirata: Revolução no Humor Televisivo
Como roteirista do programa “TV Pirata” (1988-1992), Veríssimo ajudou a revolucionar o humor brasileiro, criando sátiras inteligentes da própria programação televisiva.
Presença Constante na Imprensa
Manteve colunas regulares em veículos de prestígio nacional:
- Zero Hora
- O Estado de S. Paulo
- O Globo
- Revista Veja
O Estilo Único de Luis Fernando Veríssimo
Mestre da Crônica Brasileira
Especialista no gênero cronístico, Veríssimo definia: “Até hoje, ninguém definiu direito o que é crônica. Você pode fazer o que quiser e chamar de crônica”.
Características Marcantes
- Humor refinado e inteligente
- Ironia afiada
- Observação precisa do cotidiano brasileiro
- Linguagem acessível mas sofisticada
Paixões Além da Literatura
Músico de Jazz
Saxofonista amador dedicado, tocou em grupos como “Renato e seu Sexteto” e “Jazz 6”, paixão desenvolvida durante adolescência nos Estados Unidos.
Torcedor Colorado
Fanático torcedor do Sport Club Internacional, tema de suas primeiras crônicas jornalísticas.
Reconhecimentos e Prêmios
- 2003: Escritor que mais vende livros no Brasil (Revista Veja)
- 2004: Prix Deux Océans (Festival de Culturas Latinas de Biarritz, França)
- 1997: Troféu Juca Pato – Intelectual do Ano
- 2024: Documentário “Veríssimo” sobre seus últimos dias
Reflexões Finais sobre Morte e Vida
Caracteristicamente, Veríssimo abordava a própria mortalidade com humor melancólico. Em 2011, declarou: “A morte é uma injustiça, essa é a melhor descrição”. Anos depois, foi mais direto: “A morte é uma sacanagem. Estou cada vez mais contra”.
Impacto Duradouro na Literatura Brasileira
A morte de Luis Fernando Veríssimo marca o fim de uma era na literatura nacional. Seu legado permanece vivo através de personagens atemporais, crônicas que capturam a essência do comportamento brasileiro e um humor que transcende gerações.
O cronista que melhor soube traduzir as “comédias da vida privada” dos brasileiros deixa um vazio irreparável na literatura nacional, mas um tesouro inesgotável de histórias, risos e reflexões para as futuras gerações.
