“O Agente Secreto” conquista duas indicações ao BAFTA e consolida trajetória histórica do cinema brasileiro

por Redação
O Agente Secreto / Divulgação

O filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, acaba de receber duas indicações ao BAFTA Film Awards 2026, anunciadas nesta terça-feira (27) pela Academia Britânica de Cinema e Televisão. A produção brasileira concorre nas categorias de melhor filme em língua não-inglesa e melhor roteiro original, reforçando uma temporada de premiações excepcionalmente bem-sucedida para o cinema nacional.

As indicações colocam “O Agente Secreto” em posição privilegiada na corrida rumo ao Oscar, marcado para 15 de março. A cerimônia do BAFTA, considerada um dos principais termômetros para a maior premiação do cinema mundial, acontece em 22 de fevereiro no Royal Festival Hall, em Londres.

Uma competição de peso nas categorias principais

Na disputa por melhor filme em língua não-inglesa, “O Agente Secreto” enfrenta concorrentes internacionais de alto calibre. A categoria tem significado especial para o Brasil: Walter Salles já venceu duas vezes com “Central do Brasil” (1999) e “Diários de Motocicleta” (2005), e mais recentemente com “Ainda Estou Aqui” (2025).

A indicação de melhor roteiro original representa um reconhecimento à qualidade narrativa de Kleber Mendonça Filho, que dividirá a categoria com:

  • “I Swear”, de Kirk Jones
  • “Marty Supreme”, de Ronald Bronstein e Josh Safdie
  • “Sentimental Value”, de Joachim Trier
  • “Sinners”, de Ryan Coogler

Uma ausência notável foi Wagner Moura, que não entrou na pré-lista de melhor ator do BAFTA. A omissão surpreende, especialmente considerando sua vitória no Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama e sua indicação ao Oscar na mesma categoria — a primeira para um ator brasileiro.

A narrativa que atravessou fronteiras

Ambientado no Recife de 1977, em plena ditadura militar, “O Agente Secreto” conta a história de Marcelo (também chamado Armando), um professor universitário e especialista em tecnologia forçado a entrar no programa de proteção a testemunhas após a morte da esposa. Vivendo sob identidade falsa em uma casa segura comandada por Dona Sebastiana (Tânia Maria), ele trabalha disfarçado na Polícia Civil enquanto busca documentos da mãe falecida — uma metáfora poderosa sobre a necessidade de provar a própria existência em tempos de apagamento estatal.

O filme entrelaça thriller político, drama existencial e crítica social numa construção narrativa complexa. Kleber Mendonça Filho, conhecido por obras como “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019), escolheu deliberadamente o governo Geisel — período menos explorado cinematograficamente — para desenvolver este “exercício histórico” escrito ao longo de três anos.

Trajetória de consagração internacional

A temporada de premiações de “O Agente Secreto” tem sido impressionante. O filme já acumulou mais de 56 troféus em 36 premiações diferentes, incluindo:

Festival de Cannes 2025:

  • Melhor diretor (Kleber Mendonça Filho)
  • Melhor ator (Wagner Moura)
  • Prêmio FIPRESCI
  • Prix des Cinémas d’Art et Essai

Globo de Ouro 2026:

  • Melhor filme em língua não-inglesa
  • Melhor ator em filme de drama (Wagner Moura)

A dupla vitória no Globo de Ouro marcou história como o primeiro filme brasileiro a vencer duas categorias na mesma edição. A conquista teve ampla repercussão na imprensa internacional, com veículos como The New York Times e Variety projetando um possível crescimento na corrida ao Oscar.

Oscar 2026:

Com quatro indicações, “O Agente Secreto” iguala o recorde histórico de “Cidade de Deus” (2004):

  • Melhor filme
  • Melhor filme internacional
  • Melhor ator (Wagner Moura)
  • Melhor escalação de elenco

Performance além das expectativas nas bilheterias

O desempenho comercial surpreendeu positivamente. No Brasil, o filme atraiu mais de 1,7 milhão de espectadores e arrecadou entre R$ 27,7 e R$ 33 milhões, ocupando a sexta posição geral em 2026 e liderando entre as produções nacionais.

Internacionalmente, os números são ainda mais expressivos. A bilheteria fora do Brasil alcançou aproximadamente R$ 25 milhões, superando a arrecadação doméstica — feito raro para produções brasileiras. A receita total combinada ultrapassa R$ 52 milhões, mais que dobrando o orçamento estimado de R$ 27 milhões.

Brasil e BAFTA: uma relação histórica de sucesso

O cinema brasileiro mantém relação mais produtiva com o BAFTA do que com o Oscar. O país conquistou três vitórias em categorias importantes:

  • “Central do Brasil” (1999) — melhor filme em língua não-inglesa
  • “Cidade de Deus” (2004) — melhor edição
  • “Diários de Motocicleta” (2005) — melhor filme em língua não-inglesa

Walter Salles é o único diretor brasileiro com duas vitórias no BAFTA de melhor filme em língua não-inglesa, posicionando-se ao lado de cineastas como Pedro Almodóvar e Jacques Audiard, que possuem três vitórias cada.

Segundo levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, o Brasil é o segundo país latino-americano com mais indicações aos principais prêmios do cinema, acumulando 88 registros e seis vitórias. O México lidera com 91 indicações e oito vitórias, enquanto a Argentina soma 83 indicações e sete vitórias.

O impacto cultural e político da obra

“O Agente Secreto” transcende a condição de entretenimento para se tornar documento cultural relevante. A escolha de Mendonça Filho em retratar o período Geisel — marcado pela “abertura lenta, gradual e segura” — explora um momento historicamente menos debatido da ditadura militar brasileira.

O Cinema São Luiz, espaço real do Recife que completa 73 anos, funciona no filme como metáfora da resistência cultural. É lá que o sogro projecionista de Marcelo trabalha e onde acontecem encontros clandestinos da resistência política.

O discurso político de Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro, no qual chamou Jair Bolsonaro de “fascista”, gerou debate intenso no Brasil. A repercussão evidencia como o filme e suas premiações dialogam diretamente com questões políticas contemporâneas.

Perspectivas para as próximas cerimônias

No BAFTA, “O Agente Secreto” tem precedentes favoráveis. A Academia Britânica tradicionalmente valoriza mérito artístico e relevância cultural — critérios nos quais a produção se destaca. A vitória no Globo de Ouro e os múltiplos prêmios em festivais internacionais fortalecem a candidatura.

Para o Oscar, os desafios são maiores. Na categoria de melhor filme internacional, enfrenta “Valor Sentimental” (Noruega), considerado favorito por analistas. A vitória consecutiva de filmes brasileiros — “Ainda Estou Aqui” venceu em 2025 — pode tanto ajudar quanto criar resistência entre votantes.

Para melhor ator, Wagner Moura compete com nomes estabelecidos como Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet. Embora sua vitória no Globo de Ouro o credencia como candidato sério, a categoria historicamente favorece atores anglófonos.

Crítica especializada e recepção do público

A aclamação é praticamente unânime. No Rotten Tomatoes, o filme mantém 92% de aprovação entre críticos. A Metacritic atribuiu pontuação de 92/100, indicando “aclamação universal”. No IMDb, a avaliação é 7,9/10 com mais de 9.900 votos.

Críticos destacam a direção precisa, a performance contida de Wagner Moura, a recriação meticulosa do Recife dos anos 1970 e o uso criativo de recursos estilísticos como telas divididas e wipes.

Algumas ressalvas apontam que a duração de 2h41min e o ritmo deliberadamente contemplativo podem desafiar espectadores menos familiarizados com a linguagem autoral de Mendonça Filho ou com o contexto histórico brasileiro.

Um marco para o cinema nacional

Independentemente dos resultados em 22 de fevereiro no BAFTA e 15 de março no Oscar, “O Agente Secreto” já garantiu seu lugar na história do cinema brasileiro. A obra demonstra que produções nacionais possuem qualidade técnica, narrativa e artística para competir internacionalmente em igualdade de condições.

Mais que estatísticas, o filme representa um cinema politicamente engajado e historicamente relevante. Ao revisitar a ditadura militar através de uma narrativa que mescla gêneros e questiona o autoritarismo, contribui para debates essenciais sobre memória e verdade histórica — temas que ressoam globalmente.

A trajetória de “O Agente Secreto” na temporada 2025-2026, seguindo o caminho aberto por “Ainda Estou Aqui”, consolida o que a imprensa internacional chama de “efeito Brasil” nas premiações cinematográficas. Um momento histórico que celebra o talento de Wagner Moura, a visão autoral de Kleber Mendonça Filho e a capacidade do Brasil de produzir cinema com alcance e relevância universais.

Você também pode gostar

Compartilhe
Send this to a friend