A gente precisa mesmo parecer descansada?

por Katharine Reston
A gente precisa mesmo parecer descansada?

“Nossa, você está com uma cara de cansada.” Poucas frases conseguem transformar uma pessoa que estava vivendo normalmente em alguém que, de repente, precisa encontrar um espelho. Talvez seja a olheira, a pele menos viçosa, o olho um pouco inchado. Ou talvez seja simplesmente cansaço mesmo. O curioso é que estar cansada parece perfeitamente aceitável. Parecer cansada, nem tanto.

Existe um tipo muito específico de elogio que a beleza aprendeu a perseguir: parecer descansada. A pele precisa ter viço, os olhos precisam parecer abertos, a região abaixo deles deve estar iluminada e qualquer sinal de uma noite mal dormida precisa desaparecer antes de encontrarmos outra pessoa.

Não faltam produtos para ajudar nessa missão. Corretivos, séruns para os olhos, máscaras, patches, cremes, massageadores e toda uma categoria de cosméticos dedicada a fazer o rosto parecer ter vivido uma noite bastante diferente daquela que realmente viveu.

Nada contra. O corretivo já salvou manhãs que oito horas de sono provavelmente também teriam salvado, mas nem sempre estavam disponíveis.

O interessante é pensar por que o cansaço visível incomoda tanto.

Talvez porque tenhamos criado uma relação estranha com tudo aquilo que denuncia que um corpo está, de fato, vivendo. Olheira, poro, linha, inchaço, marca de expressão. Coisas absolutamente comuns ganham nomes que soam quase como pequenos defeitos técnicos esperando correção.

A própria linguagem da beleza entrega bastante. Produtos prometem corrigir, combater, reparar, suavizar, apagar. É como se o rosto estivesse permanentemente apresentando problemas para os quais precisamos encontrar soluções.

E as redes sociais certamente não inventaram essa lógica, mas deram a ela uma iluminação excelente.

Passamos horas olhando rostos em condições que dificilmente se repetem do lado de fora da tela. Luz frontal, ângulo escolhido, maquiagem, filtro, edição e uma quantidade considerável de tentativas antes da foto publicada. Depois fechamos o aplicativo e encontramos o nosso próprio rosto no espelho do elevador, sob aquela luz que não perdoa absolutamente ninguém.

A comparação é, no mínimo, injusta.

Só que existe outra camada nessa conversa. Vivemos cansados. Dormimos menos do que gostaríamos, passamos horas diante de telas, acumulamos trabalho, compromissos, mensagens e aquela sensação constante de que sempre existe alguma coisa que deveríamos estar fazendo.

Talvez seja mais fácil vender um produto para esconder o cansaço do que perguntar por que estamos tão cansados.

E isso não significa abandonar o corretivo em nome de uma grande revolução das olheiras. Às vezes queremos parecer mais despertos simplesmente porque gostamos do resultado. Beleza também é brincadeira, escolha e recurso. Nem toda maquiagem precisa carregar uma discussão social dentro da nécessaire.

Mas talvez possamos parar de tratar um rosto cansado como se ele tivesse cometido alguma indelicadeza.

Tem manhã em que a pele estará ótima. Em outras, não. Tem semana em que nenhuma máscara facial consegue competir com uma boa noite de sono. E tem dia em que nem a boa noite de sono resolve muita coisa.

O rosto muda. Talvez essa seja uma das coisas mais óbvias e, ao mesmo tempo, mais difíceis de aceitar sobre ele.

Então, da próxima vez que alguém parecer cansado, talvez não seja necessário avisar.

Existe uma boa chance de a pessoa já saber.

Provavelmente ela estava lá quando aconteceu.

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