Após temporada de sucesso no CCJF, “Café, Almoço, Jantar” estreia nova temporada no Teatro Laura Alvim

Com elenco formado por Fátima Patrício, Gabriel Breves, Aldo Perrotta e Renato Albuquerque, espetáculo de Ivan Fernandes, dirigido pelo autor e Maíra Kestenberg, traça um panorama do Brasil, de 1987 a 2018

por Redação
Renato Albuquerque e Fátima Patrício no espetáculo - Foto: Vantoen Pereira Jr.

O Brasil visto de dentro de uma família. É a partir dessa perspectiva que “Café, Almoço, Jantar”, com texto de Ivan Fernandes, percorre três momentos da história recente do país para investigar como transformações políticas, econômicas e sociais repercutem na vida, nos afetos e nas escolhas de pessoas comuns. Com direção de Ivan Fernandes e Maíra Kestenberg e elenco formado por Fátima Patrício, Gabriel Breves, Aldo Perrotta e Renato Albuquerque, o espetáculo estreia nova temporada no dia 2 de outubro no Teatro Laura Alvim, após temporada de sucesso no Centro Cultural Justiça Federal em setembro.

A trama se desenvolve em torno de um pequeno restaurante comandado por Dona Filó, personagem que atravessa as três fases da narrativa e testemunha as mudanças de uma família ao longo de 31 anos. Dividida em três episódios — “Café”, “Almoço” e “Jantar” —, a peça se passa em 1987, 1994 e 2018, estabelecendo uma relação entre os acontecimentos do país e as transformações vividas pelos personagens.

“A ideia de contar essa história da família com pano de fundo do Brasil. Queríamos mostrar o resultado de anos de diversas políticas na vida de uma família brasileira, de 1987 para cá. Como um restaurante pequeno sobreviveu a tantas questões econômicas ao longo das décadas, desde o governo Sarney?”, explica Ivan Fernandes.

A proposta, segundo o autor, é abordar esse percurso histórico sem tomar partido ou reduzir os acontecimentos a uma oposição simplista. “Falamos sem maniqueísmo político”, afirma.

Uma família brasileira em cena

Mais do que uma narrativa sobre acontecimentos históricos, “Café, Almoço, Jantar” mergulha nas relações familiares e em personagens que representam arquétipos facilmente reconhecíveis.

“Todos os personagens refletem arquétipos familiares: a figura da mãe solteira que segurou moralmente e economicamente a família, o filho dela, um homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa; nós temos a figura do jovem rebelde, da ovelha negra, que quer ser diferente, ir para Nova York; e temos a figura do Américo, que é cortado do convívio social de uma família, por causa de sua orientação sexual, mas que tem a sorte de ser adotado pela dona deste restaurante, e vira um ponto positivo”, explica Ivan.

Apesar das referências pessoais, o autor ressalta que não se trata de uma história autobiográfica: “Embora não seja biográfica, a peça traz esses arquétipos da minha história familiar. E é muito comum termos esses arquétipos nas famílias brasileiras.”

A personagem central, Dona Filó, é justamente a representação de uma dessas figuras familiares: a mulher que sustenta a família, administra o restaurante e tenta manter os seus por perto, mesmo quando eles desejam seguir caminhos próprios.

Para Fátima Patrício, que interpreta Filó, a construção da personagem tem sido um dos grandes mergulhos do processo.

“Fazer Café, Almoço e Jantar tem sido um mergulho muito especial para mim. A Filó é uma mulher de muitas camadas: forte, amorosa, engraçada, contraditória e, principalmente, profundamente humana. Ela ama a família de uma maneira muito intensa, mas nem sempre sabe demonstrar esse amor sem interferir, cobrar ou tentar proteger aqueles que ama. O mais bonito para mim é perceber que, ao longo da história, Filó também precisa aprender a abrir mão e aceitar que os filhos e os netos têm seus próprios caminhos. Tenho buscado construir essa personagem de uma maneira muito verdadeira, sem julgá-la, procurando entender o que existe por trás de cada atitude dela. É uma personagem que me desafia e, ao mesmo tempo, me emociona muito.”

A atriz resume a identificação com a personagem: “Quanto mais conheço Filó, mais percebo que, de alguma maneira, todos nós temos um pouco dela.”

Três refeições, três momentos do Brasil

O primeiro episódio, “Café”, se passa em 1987, nos primeiros momentos da Nova República, após vinte anos de ditadura militar. Filó recebe no café da manhã o filho-problema, Paolo. Ele revela que descobriu recentemente ter um filho, Hermes, fruto de uma relação com uma guerrilheira de esquerda desaparecida durante a ditadura. Paolo pede que a mãe fique com a criança por uma tarde enquanto resolve problemas particulares. O que deveria ser um arranjo provisório, no entanto, muda definitivamente os rumos daquela família.

Em “Almoço”, ambientado em 1994, o país vive um novo momento econômico com a estabilização da inflação provocada pelo Plano Real. Filó organiza um almoço para Hermes, que cria desde 1987, quando Paolo o deixou no restaurante “por uma tarde”. Ela pretende aproveitar a ocasião para que seu pai, um militar, encaminhe o neto para uma academia de oficiais. Hermes, porém, tem outros planos para a própria vida. Com a ajuda de Américo, garçom, melhor amigo e uma espécie de tio escolhido, anuncia que está de partida para Nova York.

O terceiro episódio, “Jantar”, chega a 2018, período marcado pela ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo. Após a morte de Filó, o restaurante está prestes a ser vendido. Hermes, agora professor de literatura estabelecido nos Estados Unidos, retorna ao Brasil para reencontrar Paolo, seu pai, pela primeira vez desde a infância. O encontro entre os dois coloca em questão não apenas o futuro do restaurante, mas também as histórias, mágoas e afetos acumulados ao longo dos anos.

O tempo como protagonista

Se os personagens atravessam a história, é o tempo que conduz a narrativa. Para Ivan Fernandes, essa passagem contínua é o elemento central da peça.

“O principal personagem da peça ‘Café, Almoço e Jantar’ é o tempo, e como sua passagem contínua transforma vidas individuais, relações familiares e paisagens sociais.”

A encenação é construída a partir dessa percepção. O trabalho dos atores e sua relação com o texto ocupam o centro da montagem, em um processo colaborativo que busca fazer com que as mudanças de época também sejam percebidas nas relações e nos corpos dos personagens.

“A encenação é totalmente centrada no trabalho dos atores e sua relação com as palavras do texto, em um trabalho colaborativo de equipe que se reflete em todas as camadas do espetáculo.”

Na criação, Maíra Kestenberg ficou mais próxima da construção estética da encenação, enquanto Ivan Fernandes se dedicou principalmente ao trabalho com os atores. O processo, segundo o autor, também revelou uma dimensão afetiva mais profunda na relação entre os personagens.

“Descobri no texto um afeto muito maior entre os personagens. A peça é uma espécie de exorcismo familiar.”

Assim, o restaurante se transforma em testemunha de uma família e, ao mesmo tempo, em uma espécie de retrato do Brasil. As grandes transformações políticas e econômicas aparecem filtradas pela intimidade: uma refeição, uma conversa, uma cobrança, uma partida ou um reencontro. Ao longo de três episódios, “Café, Almoço, Jantar” fala sobre aquilo que permanece quando tudo ao redor muda — os vínculos, as feridas, os afetos e a difícil tarefa de aprender a deixar o outro seguir seu próprio caminho.

Ficha técnica
Texto: Ivan Fernandes
Direção: Ivan Fernandes e Maíra Kestenberg
Elenco: Fátima Patrício, Renato Albuquerque, Aldo Perrotta e Gabriel Breves
Cenografia: Rostand Albuquerque
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Luis Carlos Nem
Montagem de luz: Anderson Bispo
Trilha sonora: Ivan Fernandes
Edição de som: Pivo Maia
Visagismo: Alex Palmeira
Hair stylist: Benan Araujo (Studio Eliete)
Arte gráfica: André Senna
Fotografia: Vantoen Pereira Jr.
Redes sociais: Poiszé Produções
Tráfego: Flávia Colpas
Assessoria de imprensa: Dobbs Scarpa
Direção de produção: Renato Albuquerque
Gestão e administração: Jaque Winter

Serviço
Café, Almoço, Jantar
Temporada: 2 a 25 de outubro.
Sex e sáb, às 19h. Dom, às 18h.
Local: Teatro Laura Alvim – Sala Rogério Cardoso.
Endereço: Av. Vieira Souto 176, Ipanema.
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Compartilhe
Send this to a friend