A história recente do Brasil é apresentada a partir do cotidiano de uma família em “Café, Almoço, Jantar”, que retorna aos palcos em curta temporada, de 02 a 25 de outubro, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, com sessões às sextas e sábados, às 19h, e aos domingos, às 18h. Escrito por Ivan Fernandes e dirigido pelo autor com Maíra Kestenberg, o espetáculo fez sua estreia com imenso sucesso em setembro, no Centro Cultural Justiça Federal. Em cena, Fátima Patrício, Gabriel Breves, Aldo Perrotta e Renato Albuquerque atravessam 31 anos da trajetória do país para observar de que maneira as mudanças políticas, econômicas e sociais interferem nas relações pessoais, nos afetos e nas decisões de pessoas comuns.
O ponto de partida dessa comédia de costumes é a pensão de Dona Filó, que se transforma em palco para falar de família, do tempo e de um país. Estruturada em três episódios — “Café”, “Almoço” e “Jantar” —, a peça se passa nos anos de 1987, 1994 e 2018, aproximando os acontecimentos históricos do país das experiências e transformações vividas pelos personagens.
– Sobre a ideia de contar essa história da família com pano de fundo do Brasil, queríamos mostrar o resultado de anos de diversas políticas na vida de uma família brasileira, de 1987 para cá. Como um restaurante pequeno sobreviveu a tantas questões econômicas ao longo das décadas, desde o governo Sarney? – explica Ivan Fernandes.
Uma realidade de tantas
Em “Café, Almoço, Jantar”, Ivan Fernandes costura a narrativa a partir das dinâmicas e de personagens presentes no imaginário e no cotidiano de muitas famílias brasileiras. E embora não seja uma obra biográfica, ele traz determinados traços da sua história familiar.
– Todos os personagens refletem arquétipos familiares: a figura da mãe solteira que segurou moralmente e economicamente a família, o filho dela, um homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa; nós temos a figura do jovem rebelde que quer ser diferente, ir para Nova York; e temos a figura do Américo, que é cortado do convívio social de uma família, por causa de sua orientação sexual, mas que tem a sorte de ser adotado pela dona deste restaurante, e vira um ponto positivo – conta o autor.
Dona Filó ocupa papel central nessa linha do tempo, sustentando a casa e tentando manter a família unida, mesmo diante dos desejos e escolhas de cada um. Fátima Patrício, que interpreta Filó, destaca a profundidade da personagem e seu o processo de construção.
– Quanto mais conheço Filó, mais percebo que, de alguma maneira, todos nós temos um pouco dela. A Filó é uma mulher de muitas camadas: forte, amorosa, engraçada, contraditória e, principalmente, profundamente humana. Ela ama a família de uma maneira muito intensa, mas nem sempre sabe demonstrar esse amor sem interferir, cobrar ou tentar proteger aqueles que ama. O mais bonito para mim é perceber que, ao longo da história, Filó também precisa aprender a abrir mão e aceitar que os filhos e os netos têm seus próprios caminhos. Tenho buscado construir essa personagem de uma maneira muito verdadeira, sem julgá-la, procurando entender o que existe por trás de cada atitude dela. É uma personagem que me desafia e, ao mesmo tempo, me emociona muito.”
Brasil em três atos
A montagem começa pelo “Café”, capítulo ambientado em 1987, com a Nova República dando seus primeiros passos depois de duas décadas de ditadura militar. No café da manhã, o filho-problema de Filó, Paolo, conta à mãe que descobriu ter um filho, Hermes, fruto de um relacionamento com uma guerrilheira de esquerda que desapareceu na ditadura. Numa tarde, Paolo pede a ela que cuide da criança para que possa resolver algumas questões pessoais, mas a atitude gera desdobramentos que mudam os rumos da família de forma permanente.
O tempo não para e chega a 1994, em “Almoço”. O tempo é de inflação controlada pelo Plano Real e Filó prepara o almoço para Hermes, criado por ela desde 1987. A matriarca quer que seu pai, um militar, leve o neto para uma academia de oficiais, mas Hermes já decidiu seguir outro caminho: partir para Nova York. Para isso, contará com o apoio do garçom da pensão, Américo, seu melhor amigo.
“Jantar” se desenrola em 2018, momento de avanço da extrema direita no Brasil e no mundo. Filó morre e a pensão corre o risco de ser vendida. Agora um professor de literatura com carreira consolidada nos Estados Unidos, Hermes volta ao Brasil para reencontrar seu pai pela primeira vez desde a tarde em que fora abandonado. Os dois precisam decidir o destino do restaurante em meio a lembranças, conflitos e afetos.
Tempo, tempo, tempo…
Mais do que o fio condutor, o tempo, para Ivan Fernandes, é o grande protagonista da trama, transformando vidas individuais, relações familiares e paisagens sociais com sua passagem contínua.
O autor também destaca a construção coletiva que marca o processo criativo da peça, da parceria com Maíra Kestenberg na direção até a relação afetiva mais intensa entre elenco, texto e personagens.
– A encenação é totalmente centrada no trabalho dos atores e sua relação com as palavras do texto, em um trabalho colaborativo de equipe que se reflete em todas as camadas do espetáculo. Descobri no texto um afeto muito maior entre os personagens. A peça é uma espécie de exorcismo familiar – finaliza.
Ficha técnica:
Texto: Ivan Fernandes
Direção: Ivan Fernandes e Maíra Kestenberg
Elenco: Fátima Patrício, Renato Albuquerque, Aldo Perrotta e Gabriel Breves
Cenografia: Rostand Albuquerque
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Luis Carlos Nem
Montagem de luz: Anderson Bispo
Trilha sonora: Ivan Fernandes
Edição de som: Pivo Maia
Visagismo: Alex Palmeira
Hair stylist: Benan Araujo (Studio Eliete)
Arte gráfica: André Senna
Fotografia: Vantoen Pereira Jr.
Redes sociais: Poiszé Produções
Tráfego: Flávia Colpas
Assessoria de imprensa: Carlos Pinho
Direção de produção: Renato Albuquerque
Gestão e administração: Jaque Winter
Serviço:
Temporada: 02 a 25 de outubro
Sessões: sextas e sábados, às 19h, e domingos, às 18h
Local: Casa de Cultura Laura Alvim – Sala Rogério Cardoso – Av. Vieira Souto, 176, Ipanema, Rio de Janeiro – RJ
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia), vendas na bilheteria do local ou pelo site https://funarj.eleventickets.com/#!/evento/c75d76d3b22e0367cb06d8bf56bf8a9e6e9eb9f4
Classificação: 16 anos
Duração: 70 minutos
Rede social: https://www.instagram.com/cafealmocojantarapeca/
SEU ZÉ — Uma Peça Ritual de Teatro chega a Santa Teresa para temporada na Sede da Companhia dos Atores
Espetáculo do coletivo Axé Deles realiza três apresentações em outubro, na região da Escadaria Selarón, aproximando teatro, ancestralidade, espiritualidade e memória em uma experiência imersiva

Seu Zé
Após três anos de circulação por diferentes cidades, teatros, terreiros e festivais, “SEU ZÉ — Uma Peça Ritual de Teatro”, do coletivo artístico-político Axé Deles, chega ao Rio de Janeiro para uma temporada especial na Sede da Companhia dos Atores, em Santa Teresa.
As apresentações acontecem nos dias 21 e 28 de outubro, sempre às 19h, na Rua Manuel Carneiro, 12, endereço localizado junto à tradicional Escadaria Selarón.
Concebido, dirigido e interpretado por Gabriel Bittencourt, “SEU ZÉ” propõe uma experiência que desloca o espectador da posição convencional de observador. Em uma encenação em formato de arena, o público é colocado próximo à cena e convidado a atravessar um terreiro simbólico, onde elementos do teatro ritual se encontram com referências das tradições afro-brasileiras e da dramaturgia autobiográfica.
A obra apresenta Erê, Preto Velho e Zé Pilintra das Almas, personagens que atravessam uma narrativa marcada por encontros, memórias, conflitos e transformações. A dramaturgia investiga questões relacionadas à ancestralidade, fé, identidade e pertencimento, tendo o corpo como um dos principais territórios de construção da cena.
Um terreiro dentro do teatro
Em “SEU ZÉ”, a relação entre espaço e público é parte fundamental da dramaturgia. Não há uma divisão convencional entre palco e plateia. O espaço é transformado cenicamente em um terreiro simbólico, enquanto a proximidade dos espectadores com os intérpretes faz com que cada apresentação seja construída também a partir da presença de quem assiste.
A proposta é criar uma experiência sensorial e ritualística na qual corpo, palavra, música, luz, silêncio e presença se encontram.
“SEU ZÉ nasce do desejo de aproximar o teatro da experiência ritual. A cena se transforma em território de memória, de ancestralidade e de encontro. Cada espaço onde apresentamos o espetáculo também modifica o próprio ritual.”
— Gabriel Bittencourt, diretor, criador e intérprete
Três anos de circulação
Criado a partir das pesquisas desenvolvidas pelo Axé Deles, “SEU ZÉ” vem construindo uma trajetória marcada pela circulação e pelo encontro com públicos diversos.
Ao longo desse percurso, o espetáculo passou por espaços como Funarte MG, Teatro Ruth de Souza, Teatro Del’Art, Sesc Pelourinho, Barracão, Teatro Dulcina e Teatro GayLussac, além de integrar festivais e ações culturais em diferentes cidades.
A obra também recebeu premiações no FESTEBY e no PROFEST Congonhas. Em 2026, realizou ainda uma ocupação especial na Funarte São Paulo, no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, dentro da proposta “SEU ZÉ — Ocupação Ritual de Teatro, Memória e Ancestralidade”.
Agora, a chegada a Santa Teresa amplia essa trajetória e coloca o espetáculo em contato com um dos territórios de forte tradição artística e cultural do Rio de Janeiro.
Axé Deles
“SEU ZÉ” é uma criação do Axé Deles, coletivo artístico-político que desenvolve pesquisas e criações a partir do teatro ritual, da ancestralidade, das narrativas autobiográficas e da defesa dos direitos humanos.
O coletivo nasceu em 2021, a partir de uma pesquisa desenvolvida no contexto da Cabana Oxóssi das Matas, em Juiz de Fora (MG), durante o processo de criação de “SEU ZÉ”.
Desde então, o grupo vem desenvolvendo trabalhos que aproximam teatro, memória, espiritualidade e questões contemporâneas relacionadas às desigualdades raciais, de gênero e sexualidade, além da valorização das culturas afro-brasileiras e do enfrentamento ao racismo religioso.
A pesquisa do coletivo entende o corpo como território político e poético, utilizando a cena como espaço para produzir novas formas de narrar experiências, memórias e identidades.
O ritual continua
Para a temporada carioca, o coletivo propõe uma nova travessia para o espetáculo.
Em Santa Teresa, entre a arquitetura, as cores e a movimentação da região da Escadaria Selarón, “SEU ZÉ” encontra a Sede da Companhia dos Atores para construir mais um território de encontro entre artista e público.
Durante três quartas-feiras de outubro, o espaço será transformado em um terreiro simbólico.
A proposta é simples: entrar, atravessar e permitir-se estar presente.
SERVIÇO
SEU ZÉ — Uma Peça Ritual de Teatro
Temporada Rio de Janeiro
14, 21 e 28 de outubro de 2026
19h
Sede da Companhia dos Atores
Rua Manuel Carneiro, 12 — Santa Teresa
Rio de Janeiro — RJ — 20241-120
Próximo à Escadaria Selarón
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: 10 anos
Ingressos: Sympla — SEU ZÉ — Uma Peça Ritual de Teatro
Instagram: @axedeles | @espetaculoseuze
Um terreiro simbólico.
Três presenças.
Memória, ancestralidade e transformação.
Um espetáculo em que o teatro se aproxima do ritual e o público é convidado a atravessar a cena.
SEU ZÉ não é apenas para ser assistido. É para ser atravessado.
Sucesso em São Paulo, “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, com Johnny Massaro, abre vendas para temporada no Rio
Primeiro monólogo do ator em 22 anos de carreira, espetáculo inspirado no best-seller da psicanalista Ana Suy, chega ao Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch em janeiro de 2027

A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidã – Foto: Hudson Rennan
Em cartaz em São Paulo, onde vem conquistando público e crítica, “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” já tem data para chegar ao Rio de Janeiro. Protagonizado e idealizado por Johnny Massaro, o espetáculo fará temporada de 8 a 31 de janeiro de 2027, no Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch, e as vendas já estão abertas.
A imprensa paulistana é só elogios à montagem, que marca o primeiro monólogo de Johnny em 22 anos de carreira. O ator vive também um momento importante de sua trajetória profissional após conquistar o Grande Otelo 2026 de Melhor Ator, por sua atuação em “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”.
A peça é livremente inspirada no livro “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, da psicanalista e escritora Ana Suy, que já ultrapassou a marca de 500 mil cópias vendidas.
Na trama, um guia turístico convida o público para uma visita ao coração humano. Entre a expectativa da chegada da pessoa amada e a elaboração do fim dessa relação, ele conduz os visitantes por um passeio existencial e bem-humorado sobre o amor e a inevitável solidão que atravessa a existência humana.
Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch
Localizado no histórico Edifício Manchete, na Glória, Rio de Janeiro, projetado por Oscar Niemeyer, com paisagismo de Burle Marx, o Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch é palco de momentos célebres da cultura brasileira. Desde maio de 2019, o Instituto Evoé assumiu a missão de devolver à cidade esse ícone cultural, agora ainda mais moderno e plural.
Graças à genialidade de Niemeyer, que concebeu um palco reversível, tornou-se possível, inclusive durante o período desafiador da pandemia, realizar espetáculos e eventos tanto na área interna quanto na externa, ao ar livre, ou mesmo em ambos os espaços simultaneamente, em formato arena. Essa versatilidade proporciona aos artistas, produtores, cariocas e turistas múltiplas formas de criar, vivenciar e consumir arte e entretenimento.
Único teatro da cidade do Rio de Janeiro com um palco reversível, o Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch permite que o público se acomode também no jardim externo do espaço. Em 2021, o local foi adaptado para o formato arena, com capacidade para 359 lugares na área interna e 120 na externa, além de um palco de 140 m², equipado com infraestrutura técnica de alto padrão.
O espaço abriga ainda um centro de convivência, cinco salas de ensaio, projetadas para receber diversas produções simultaneamente, e o bistrô Bettina Café & Arte. A programação valoriza a diversidade cultural e prioriza um entretenimento plural, pensado para públicos de todas as idades e estilos. Desde sua reabertura, já foram realizadas mais de 1.000 apresentações, reunindo uma plateia de mais de 400 mil pessoas.
SERVIÇO
A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão
De 8 a 31 de janeiro de 2027
Quintas, sextas e sábados, às 20h / Domingos, às 18h
Valores:
Quintas-feiras
Plateia A: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia)
Plateia B: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia)
Sextas-feiras, sábados e domingos
Plateia: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia)
Duração: 60 minutos
Classificação: 12 anos
Informações para a imprensa – Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch:
MNiemeyer Assessoria de Comunicação
Juliana Rosa: [email protected] / (21) 97209-5898
Epifania transforma criação, vazio e urgências do mundo contemporâneo em nova fábula musical

Epifania – Foto: André Leão.
Com sete atores multi-instrumentistas, o novo espetáculo original de Vitor Rocha estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, e aborda criatividade, hiperconexão, solidão e a pressão para que tudo precise ter uma finalidade.
O que acontece quando até aquilo que nasce do prazer, da curiosidade e da necessidade de criar passa a precisar de uma finalidade? É a partir dessa inquietação que nasce “Epifania – Uma Fábula Moderna”, novo musical original de Vitor Rocha, que estreia em 28 de outubro, no Teatro Estúdio, em São Paulo, onde cumpre temporada às quartas e quintas até 17 de dezembro. Com sete atores multi-instrumentistas em cena, o espetáculo, produzido pela Encanto Artístico Produções e Girassol Produções, mistura fantasia e questões profundamente contemporâneas como hiperconexão, FOMO, solidão, excesso de estímulos e a constante pressão por desempenho e validação para falar sobre criatividade. Os ingressos estão à venda pela Sympla.
A história se passa num tempo fictício, mas que se confunde com hoje em dia, o tempo do moderno, do consumo e da informação, onde Filipa, uma compositora vivida por Luiza Porto, se vê frente a frente com o destino que sempre desejou, mas a oportunidade que poderia mudar sua carreira também traz consigo uma espécie de bloqueio criativo que leva embora o seu dom para a música. Sua jornada, ao lado de seu vizinho Valério, interpretado por Diego Rodda, para recuperá-lo e colocar tudo nos eixos outra vez, inventa uma fábula épica que nos devolve ao tempo antes do tempo — quando tudo era apenas nada, um grande vazio — e ao encontro das criadoras de todos os conteúdos, as maiores, as primeiras, elas: Primas, vividas por Anna Toledo, Marília Lopes e Aline Cunha. O grande vazio e o seu poder de se alastrar sempre encontram uma brecha, é assim desde antes de tudo e será enquanto houver o que há. Mas a essência nunca se engana e uma epifania pode ser a saída de todos os problemas, Filipa só precisa criar!
Sem demonizar a tecnologia ou transformar suas provocações em discurso moralista, o musical aproxima a fábula das inquietações de uma geração permanentemente conectada. Seus personagens convivem com notificações, distrações, comparação, pressa e a sensação de que alguma coisa mais importante pode estar acontecendo em outro lugar. Ao mesmo tempo, a obra chama atenção para uma contradição cada vez mais presente: sabe-se muito sobre aquilo que acontece do outro lado do mundo e, muitas vezes, quase nada sobre quem está logo ao lado.
Esse conflito também determina a própria forma de contar a história. Marco França e Laura Castro interpretam Verso e Fábula, dois narradores que discordam continuamente sobre como a trama deveria avançar. Enquanto um quer chegar diretamente ao que considera importante, o outro reivindica o tempo da fantasia, dos começos, das imagens e da construção de uma história. Em meio a esse embate, a dramaturgia brinca com as convenções do próprio teatro propondo uma valiosa reflexão sobre a forma e o conteúdo em tempos de tanta criação de conteúdo.
A música ocupa lugar central nessa construção. Os sete integrantes do elenco são multi-instrumentistas e transitam por diferentes instrumentos ao longo do espetáculo. O grupo reúne artistas que, para além da interpretação, também se dividem entre a composição, a escrita e outras frentes criativas, conduzindo uma trilha sonora original que inclui ainda passagens instrumentais e abre espaço para que o som, o silêncio e o tempo também conduzam a narrativa, sem a necessidade permanente da palavra.
Essa ideia se estende visualmente ao palco. É desse espaço vazio que ambientes e imagens vão sendo construídos diante do público, em uma concepção que acompanha a própria origem da história: tudo começa no nada, a partir da página em branco, e ganha forma a partir da criação. A direção de movimento é de Fabrício Licursi, enquanto os arranjos musicais são assinados por Marco França.
“Epifania” marca também um novo momento autoral na trajetória de Vitor Rocha. Premiado por trabalhos no teatro musical e responsável por títulos que ganharam diferentes temporadas e montagens dentro e fora do país, o artista chega com a obra ao décimo espetáculo de sua autoria encenado e retorna a uma criação inteiramente própria depois de cerca de dois anos dedicados também à retomada de trabalhos anteriores e a projetos desenvolvidos para outros contextos. Embora Filipa seja uma compositora, e não um dramaturgo, Rocha reconhece nela conflitos muito próximos daqueles que atravessaram seu próprio processo criativo.
“Eu acho que nunca fiz um espetáculo tão pessoal na minha vida. É a minha cabeça aberta ali no palco, nessa história. O meu processo criativo visto de dentro”, afirma Vitor. A ideia de criar as “Primas” surgiu ainda em janeiro, mas foi no fim de julho que o autor decidiu transformar aquele universo em seu próximo musical. Texto, músicas e letras ganharam forma em um mergulho concentrado durante o mês de agosto e chegaram à sala de ensaio ainda abertos ao encontro com os demais criadores da montagem.
O próprio título parte dessa relação com a criação. Epifania remete ao instante de uma percepção súbita, quando algo até então disperso parece finalmente ganhar forma e sentido. Na dramaturgia de Rocha, alcançar essa essência está menos relacionado ao resultado produzido a partir de um talento do que à possibilidade de reconhecer aquilo que cada pessoa é capaz de colocar no mundo.
“Pensei muito durante esse processo: o que seria alcançar a minha essência? E acabei concluindo que a minha essência é fabulosa e fabulesca, é assim que as coisas ganham forma através de mim”, explica.
Entre fantasia e realidade, “Epifania” transforma o vazio em possibilidade. Em vez de oferecer respostas prontas sobre produtividade, tecnologia ou criação, o musical propõe um olhar para aquilo que pode desaparecer quando todas as experiências passam a ser medidas por resultado, velocidade ou utilidade. E para o que talvez ainda possa nascer quando existe espaço suficiente para que uma fagulha permaneça acesa.
SERVIÇO:
Epifania – Uma Fábula Moderna
Estreia: 28 de outubro de 2026
Temporada: até 17 de dezembro
Sessões: quartas e quintas às 20h
Local: Teatro Estúdio
R. Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos, São Paulo – SP, 01203-001
Ingressos: R$ 120,00 [inteira] R$ 60,00 [meia]
Vendas: Sympla
https://bileto.sympla.com.br/event/127008
Classificação: livre
FICHA TÉCNICA:
Texto, letras e direção: Vitor Rocha
Composição e direção musical: Marco França
Direção de Movimento: Fabricio Licursi
Direção de produção: Luiza Porto e Laura Castro
Produção: Roberta Franco, Gabi Manaia
Assistente de direção musical: Marilia Lopes
Diretor de palco: João Sá
Elenco: Diego Rodda, Anna Toledo, Aline Cunha, Marilia Lopes, Luiza Porto, Laura Castro e Marco França.
Social Media: Gabriela Gianesi e Juliana Prospero
Gestão Comercial: Marilia Lopes
Assessoria de Imprensa: GPress Comunicação
Realização: Encanto Artístico Produções e Girassol Produções
Patrocínio: Refúgios Urbanos
Apoio: Mais Coluna
Sou formada em jornalismo pela Universidade Gama Filho, apaixonada por
eventos culturais, em especial o teatro, que nos faz viajar, pensar, sonhar,
sorrir, chorar e amar.