Cliques de cachalotes — sequências rítmicas chamadas codas, trocadas pelas baleias durante a socialização — contêm propriedades espectrais surpreendentemente similares às vogais humanas. A conclusão é de um estudo publicado no Proceedings of the Royal Society B, liderado pelo linguista Gašper Beguš, da Universidade da Califórnia em Berkeley, em parceria com o Project CETI (Cetacean Translation Initiative).
A descoberta reposiciona o entendimento científico sobre um dos sistemas de comunicação mais sofisticados do reino animal. Por décadas, os codas foram tratados como equivalentes ao código Morse — sinais simples definidos pelo número e pelo espaçamento entre cliques. O novo conjunto de pesquisas indica que essa leitura subestimava radicalmente a complexidade da linguagem dos cachalotes.
Destaques
- Pesquisa identificou dois “fonemas” distintos nos cliques de cachalotes — vogal-a e vogal-i — em análise de 1.100 codas registradas próximas à ilha caribenha de Dominica.
- Coarticulação — fenômeno em que sons adjacentes influenciam a estrutura uns dos outros — foi detectada pela primeira vez na comunicação de cetáceos.
- O estudo é conduzido pelo linguista Gašper Beguš (UC Berkeley) em colaboração com o Project CETI, iniciativa voltada a decifrar a comunicação dos cachalotes.
- O próximo desafio da equipe é correlacionar padrões de cliques a comportamentos observáveis das baleias para avançar na tradução dos codas.
De código Morse a vogais: como a ciência revisou os cliques de cachalotes
A revisão começou em 2024, quando o Project CETI demonstrou que as baleias modificam seus codas conforme o contexto social, ajustando ritmo, andamento e acrescentando cliques extras. O resultado é um repertório expressivamente maior do que se imaginava.
Em novembro de 2025, a equipe de Beguš publicou na revista Open Mind uma descoberta ainda mais inesperada. Ao remover os silêncios entre os cliques e acelerar o áudio, os codas revelam propriedades espectrais muito similares às vogais da fala humana.
“No passado, os pesquisadores pensavam na comunicação das baleias como uma espécie de código Morse”, afirmou Beguš. “Este artigo mostra que seus chamados se parecem mais com vogais extremamente lentas — o que sugere uma complexidade que se aproxima da linguagem humana.”
Esse achado preparou o terreno para a pesquisa mais recente, publicada no Proceedings of the Royal Society B, que aprofundou a análise com um corpus de 1.100 codas.
Dois “fonemas” de baleia e o padrão que ninguém esperava encontrar
Os pesquisadores identificaram duas “vogais de coda” distintas: a vogal-a e a vogal-i. Registraram também padrões comparáveis a ditongos, nos quais as frequências dos formantes sobem e descem dentro de uma única coda, de forma similar à palavra inglesa cow, que desliza do som “á” ao “u”. As codas-a tendem a ser mais longas do que as codas-i.
O achado mais determinante, porém, foi a coarticulação. Trata-se do fenômeno da fala humana em que sons adjacentes influenciam a estrutura uns dos outros, tornando a fala fluida e contínua. Ao fazer a transição entre codas-a e codas-i, as baleias parecem modificar o clique inicial da nova coda para alinhá-lo ao anterior.
“Isso indica uma ordem hierárquica complexa dentro desse sistema”, ressaltou Beguš.
O que falta decifrar na linguagem dos cachalotes
Os pesquisadores ainda não sabem o que significam codas específicas. A complexidade estrutural identificada, porém, sugere que a comunicação dos cachalotes pode codificar muito mais informações do que a ciência acreditava até agora.
O cofundador do Project CETI, David Gruber, destacou que as semelhanças com a linguagem humana são notáveis. Em sistemas de comunicação extensos, os seres humanos desenvolveram vogais em praticamente todos os idiomas. A descoberta indica que os cachalotes criaram, de forma independente, um sistema análogo ao de vogais e o empregam de maneiras comparáveis.
O próximo passo da equipe é relacionar padrões de cliques a comportamentos observáveis das baleias — tarefa que, segundo os próprios pesquisadores, pode levar anos para produzir resultados conclusivos.
A ciência do som das baleias acaba de ganhar um novo ponto de partida.
FAQ
O que são os codas dos cachalotes?
Codas são sequências rítmicas de cliques de banda larga que cachalotes trocam durante a socialização na superfície ou antes de mergulhos profundos. A nova pesquisa revelou que esses cliques contêm propriedades espectrais semelhantes às vogais humanas, com dois padrões distintos: a vogal-a e a vogal-i.
Como os pesquisadores descobriram estruturas vocálicas nos cliques de cachalotes?
Ao remover os silêncios entre os cliques e acelerar o áudio dos codas, a equipe do linguista Gašper Beguš identificou estruturas de formantes similares às vogais humanas. O estudo mais recente analisou 1.100 registros de 15 cachalotes fêmeas e filhotes próximos à ilha de Dominica.
O que é coarticulação e por que ela importa nessa pesquisa?
Coarticulação é o fenômeno da fala humana em que sons adjacentes se influenciam mutuamente, tornando a fala fluida. Detectá-la nos cliques de cachalotes sugere que o sistema de comunicação das baleias possui uma organização hierárquica comparável à da linguagem humana, segundo os pesquisadores.
