Comida com história: a memória afetiva sai das casas e chega aos cardápios profissionais  

No Rio, a feijoada que a Chef Carolina Diegues Monteiro servia aos amigos nos próprios aniversários virou prato do Armazém Cardosão, em Laranjeiras, um retrato de um movimento que valoriza origem, afeto e ingredientes brasileiros à mesa 

por Redação
Carol Diegues - Armazém Cardosão (Divulgação)

Na gastronomia, receitas que carregam histórias pessoais ganham espaço por trazerem ao cardápio algo que vai além do sabor: memória afetiva, tradição e identidade. Cada vez mais, chefs resgatam preparos que fazem parte de suas próprias histórias, levando para os restaurantes pratos que nasceram em almoços de família, encontros entre amigos e celebrações especiais.

Um exemplo carioca desse movimento está em Laranjeiras. No Armazém Cardosão, tradicional bar e restaurante do bairro, uma das estrelas da casa é a feijoada da Sócia e Chef Executiva Carolina Diegues Monteiro, uma receita que, antes de ganhar o público do botequim, era presença obrigatória nas festas de aniversário da chef.

Preparada para receber os convidados, a feijoada ficou tão associada à anfitriã que ganhou nome próprio: “Feijoada da Carol”. O caminho até o cardápio foi natural. O Cardosão já tinha na feijoada um de seus pratos mais conhecidos, e a Chef trazia a sua versão, aperfeiçoada e compartilhada ao longo dos anos. O encontro das duas histórias transformou uma receita de celebração em parte da experiência oferecida aos clientes.

“Essa feijoada sempre foi sinônimo de reunir quem eu gosto. Trazer para o Cardosão foi uma forma de continuar fazendo isso, só que agora com uma mesa bem maior”, conta a Chef.

Armazém Cardosão - Feijoada - Foto: Rodrigo Azevedo

Armazém Cardosão – Feijoada – Foto: Rodrigo Azevedo

Tradição como ponto de partida, não como limite 

A valorização da memória afetiva caminha junto com outra tendência forte da cozinha brasileira: a releitura de ingredientes nacionais em preparações criativas, sem perder a raiz. É essa a linha que orienta a cozinha de Carolina. “Levamos a essência do botequim muito a sério. Nós nos esforçamos para inovar usando produtos tradicionais da culinária brasileira e mantendo a coerência com nossa tradição”, afirma.

O exemplo mais recente é o harumaki de taioba com molho de goiabada picante, criado para o Circuito da Culinária da Terra deste ano. O prato une a técnica do rolinho de origem asiática a uma folha muito presente na culinária mineira e fluminense, hoje redescoberta como PANC (planta alimentícia não convencional), e ao doce mais brasileiro de todos, em versão apimentada. O sucesso no circuito garantiu a vaga: a criação deve entrar no próximo cardápio fixo da casa.

O botequim como laboratório 

Entre a feijoada que carrega a história pessoal da Chef e as releituras de ingredientes nacionais, o Cardosão mostra como o boteco carioca, sem abrir mão do balcão, do chope e do clima de bairro, pode ser também um espaço de autoria. A tradição dá a base; o afeto e a criatividade dão o tempero.

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