Dirigido por Gabriel Contente e Bruna Diacoyannis, filme aborda luto, memória e ausênciaem sessão comclássico do cinema brasileiro e debate
Abordando de forma delicada luto e memória, o curta-metragem Aqui Comem os Pombos, dirigido pela dupla Gabriel Contente e Bruna Diacoyannis, estreia dia 21 de outubro, às 18h, no Cine Macunaíma, no Centro do Rio. A sessão tem entrada franca, e conta com uma programação especial que aproxima diferentes gerações do cinema brasileiro: além da exibição do curta, o público vai assistir o longa Também Somos Irmãos, com Grande Otelo, um clássico escrito por Alinor Azevedo, bisavô de Gabriel, e participar de um debate com o pesquisador e historiador de cinema Luís Alberto Rocha Melo.
Amigos e parceiros artísticos desde a Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Gabriel e Bruna assinam a direção da obra, que nasce de uma experiência íntima e transforma a dor da perda em investigação poética da linguagem cinematográfica. O filme também marca um reencontro de Gabriel com suas próprias origens artísticas: a produção foi realizada com Letícia Canavalle, sua primeira professora de teatro, a quem ele define como uma verdadeira mãe na arte.
Em Aqui Comem os Pombos, um jovem, interpretado por Gabriel, contempla a paisagem de uma praia enquanto narra pensamentos, lembranças e sentimentos diante da ausência de alguém que marcou profundamente sua vida. Entre o mar, o céu, a areia e pequenas memórias, o personagem atravessa um dia aparentemente comum, revelando as camadas de um mundo interior atravessado pelo luto e pela saudade. O ator divide cenas com a atriz Letícia Canavalle.
A origem do filme está na história pessoal de Gabriel, cuja mãe, falecida em 2025, enfrentou uma doença neurodegenerativa, que comprometeu progressivamente as capacidades cognitivas e a interação com o mundo. A experiência de acompanhar a transformação de alguém ainda vivo, mas cuja presença se modifica profundamente, tornou-se o ponto de partida para uma reflexão sobre as diferentes formas de perda.
“A concepção deste curta-metragem veio do desejo pessoal de homenagear minha mãe, a pessoa mais importante da minha vida”, conta Gabriel. Para ele, a experiência de acompanhar a doença materna trouxe uma forma particular de luto: “Muito pior do que o luto da morte é o luto por uma pessoa que ainda está viva”.
O desejo de abordar esse sentimento por meio da poesia e da estética cinematográfica levou o diretor à Praia do Leme, lugar de memória afetiva compartilhada com a mãe. Ali, entre as marcas deixadas pelas ondas e a presença dos pássaros na areia, surgiu a imagem que daria nome ao filme.
“Pela primeira vez, observei a linha das ondas e notei que os pombos comiam, ali mesmo, as coisinhas deixadas pelo mar”, relembra. A cena cotidiana tornou-se uma metáfora para a fragilidade, a sobrevivência e a deterioração, elementos que atravessam tanto a experiência individual do luto quanto o olhar do realizador sobre a sociedade contemporânea.
A escolha de uma narrativa construída a partir do fluxo de pensamento reforça a proposta de traduzir em imagens e sensações aquilo que nem sempre pode ser expresso verbalmente. Em vez de uma abordagem estritamente realista, o curta-metragem aposta na contemplação e na fragmentação das lembranças para construir uma experiência sensorial sobre a saudade, a passagem do tempo e a permanência dos vínculos afetivos.
Mais do que um relato pessoal, Aqui Comem os Pombos propõe uma reflexão sobre a ausência, a memória e a maneira como a arte pode elaborar experiências difíceis de nomear. Ao transformar uma vivência íntima em linguagem cinematográfica, o filme convida o público a reconhecer, nas imagens de uma praia e nos pequenos acontecimentos da natureza, os vestígios de relações que continuam mesmo após a morte.
A sessão de estreia será acompanhada da exibição de Também Somos Irmãos, de Alinor Azevedo. A presença do filme na programação estabelece uma conexão entre a trajetória familiar de Gabriel e a memória do cinema nacional. O debate com Luís Alberto Rocha Melo amplia esse diálogo, propondo um encontro entre a produção contemporânea e a história da cinematografia brasileira.
Segundo Gabriel, a escolha de Também Somos Irmãos para integrar a programação do evento parte do desejo de resgatar uma obra de grande relevância artística e histórica para o cinema brasileiro. O filme de 1949, dirigido por José Carlos Burle e escrito por Alinos Azevedo, é marcado pela crítica social e pelo humor.
“A ideia de trazer especificamente este filme para nosso evento, é antes de tudo pela proposta crítica e bem-humorada que traduzem o trabalho de meu bisavô, Alinor. Também Somos Irmãos conta a história de dois irmãos pretos, Grande Otelo, grande nome do cinema, e Agnaldo Camargo, o destaque máximo da Cia de Teatro Experimental do Negro”, diz Gabriel.
Gabriel reforça que apesar de sua importância histórica e de suas qualidades artísticas, Também Somos Irmãos é pouco lembrado pelo grande público. Sua inclusão no evento representa, portanto, uma oportunidade de trazer novamente à discussão uma obra fundamental, valorizando seu legado e reafirmando a importância de preservar e revisitar filmes que contribuíram para a história do cinema nacional.

Marcos Michalak é jornalista, criador de conteúdo e especialista em televisão, novelas e entretenimento. Apaixonado pelo universo da teledramaturgia brasileira, construiu sua trajetória produzindo conteúdos voltados aos bastidores da TV, entrevistas exclusivas, cobertura de realities, lives, cultura pop e tudo o que movimenta o mundo do entretenimento.