O universo mágico do circo ganha vida em cores, desenhos e telas na exposição “A Devida Comédia – Um Palhaço na Arte”, do artista plástico, designer, professor e palhaço Eduardo Andrade. A mostra será apresentada no Armazém da Utopia, com abertura dia 30 de maio, sábado, às 17h. Em 2026, ele celebra 40 anos de trajetória na arte circense e reúne na exposição uma pesquisa autoral que mistura artes plásticas, memória afetiva e a irreverência do palhaço Dudu, personagem criado pelo artista.
A exposição reúne 40 peças – entre telas em acrílica, desenho e esculturas. A proposta é uma imersão no imaginário do circo, tema que ao longo da história inspirou nomes como Pablo Picasso, Henri de Toulouse-Lautrec e Pierre-Auguste Renoir. A partir da visão de quem vive o picadeiro “de dentro para dentro”, Eduardo Andrade constrói uma experiência sensorial e afetiva, onde cada obra busca despertar emoções, lembranças e reflexões sobre esse universo encantado. Além das obras visuais, a mostra contará com quatro apresentações do Manifesto Duduísta, interpretado pelo palhaço Dudu. A performance questiona, com humor e ironia, o valor da arte e seus desdobramentos, conduzindo o público a uma reflexão sobre as subjetividades presentes na criação artística.
“A Devida Comédia – Um Palhaço na Arte” é um movimento estético circense, artístico e filosófico, que tem como principal objetivo despertar no espectador uma reflexão contundente e curiosa diante da obra de arte — não apenas sobre a materialidade das cores e formas, mas principalmente sobre aquilo que está por trás dos traços e subjetividades apresentadas.
A ARTE ALÉM DO PICADEIRO (Por Mauro Trindade, curador da exposição)
Há algo de perigoso nos palhaços. Não aquele horror óbvio e sangrento de facas, serras e machados dos filmes trash, mas algo muito mais primitivo e subterrâneo, capaz de torcer a razão instituída e revelar a fragilidade de nossas crenças. Bobos da corte, jesters, bufões, clowns e palhaços de todas as denominações são o contraponto ao Poder e à majestade substituídos pela irreverência e a solenidade pelo deboche e o ridículo. Sempre são e serão subversivos e talvez isso explique a permanência dos palhaços até mesmo no mundo digital de hoje. Por tudo isso ninguém melhor que Eduardo Andrade, o Palhaço Dudu, para estar duplamente em ação nesta grandiosa montagem de O Dragão, de Eugène Schwartz. O monstro-boneco que vemos na peça é sua criação e aqui no foyer estão outras de suas esculturas e pinturas. Designer, pintor, escultor, malabarista, ator, músico, bonequeiro, contador de histórias, relutante dançarino e grande mestre da palhaçaria, Dudu levou a mesma graça e ironia de suas ações teatrais e circenses para as telas e objetos tridimensionais, sempre de forma inusitada e a serviço do humor, ora mais ácido ora mais pungente.
O riso suspende as controladoras expectativas e, como escreve Bergson, afrouxa “a rigidez mecânica na superfície do corpo social”. Sem ele seríamos pouco mais que autômatos e é exatamente nossa capacidade de rir de nós mesmos e dos outros que permite que sejamos tolerantes, possamos abraçar as diferenças e nos abrir à criação. A primeira pessoa que riu inventou a humanidade.
Eduardo Andrade
Ao longo de quatro décadas de trajetória artística, Eduardo Andrade construiu uma carreira que une circo, teatro e artes plásticas. Criador do palhaço Dudu, integrou a primeira formação da Intrépida Trupe e dos Irmãos Brothers, grupos de reconhecida importância no cenário circense brasileiro. Participou de espetáculos como “Macaco, relatório a uma Academia”, de Franz Kafka; “Esquecimento Global”, “Uma Nova Onda”, com o Palhaço Dudu; “Plano B para Crianças”, oficina de bonecos; e trabalhos marcados pela mistura de humor, poesia visual, teatro de bonecos e forte apelo imagético. Entre suas criações está também o Dragão de seis metros que integra o espetáculo homônimo apresentado pela Companhia Ensaio Aberto no Armazém da Utopia. Além da atuação nos palcos, Eduardo desenvolve cenários, figurinos, bonecos e objetos de cena, consolidando uma pesquisa artística profundamente ligada às artes visuais e ao universo lúdico do circo. Foi o idealizador do primeiro selo dos Correios em homenagem ao Circo no Brasil.
Armazém da Utopia
Localizado na Zona Portuária do Rio de Janeiro, em um espaço com mais de sete mil metros, o Armazém da Utopia é a casa da Companhia Ensaio Aberto, um local em que o teatro reina absoluto. E, por conta disso, é um porto aberto para receber os coletivos irmãos do Brasil, da América Latina, da África e de todos os lugares do mundo. É um espaço de pesquisa de linguagem, onde outros coletivos podem “fundear ou amarrar e estabelecer contatos e comunicação, lugar de descanso e de refúgio”. Lugar de abrigo, mas sobretudo um Armazém da Utopia, de construção de cidadania onde os homens e mulheres possam adquirir fôlego e estabelecer novos laços; um porto que em vez de amarrar à terra ajude a navegar, a recobrar forças, a encontrar um ao outro, para podermos sobreviver e até vicejar em meio ao turbilhão.
Em maio e junho, o Armazém da Utopia conta com a seguinte programação, além da exposição “A Devida Comédia – Um Palhaço na Arte”: “O Dragão”, de sexta a segunda, às 20h; “Palavras”, às quintas às 19h e o projeto “Crias da Comunidade” voltado para capacitação de profissionais do teatro.
SERVIÇO
Exposição: “A Devida Comédia – Um Palhaço na Arte”
- Artista: Eduardo Andrade
- Local: Armazém da Utopia – Zona Portuária
- Abertura: sábado, dia 30 de maio, às 17h
- Horário visitação: quintas, sexta, sábado, domingo e segunda, das 14h às 19h (entrada até 18:30h)
- Performances: sábados e domingos, 30 e 31/05, 06 e 07/06 no horário da visitação.
- Entrada gratuita
Este projeto tem parceria com o Ministério da Cultura, a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural, por meio do projeto Teatro dos Trabalhadores – 30 anos de Companhia, Termo de Fomento Transfere.gov nº 928622/2022.
