O Grupo Sobrevento estreou em 1998 um de seus maiores sucessos. O divertido “Cadê o meu herói?”, do argentino Horacio Tignanelli, fez história no universo do teatro de bonecos. Mais: tornou de conhecimento público e notório o emblemático trabalho de jovens artistas, diretores, pesquisadores e incansáveis titereiros do coletivo, hoje referência mundial em seu ofício. Naquele final da década de 1990, a montagem surpreendeu a crítica. Uma questão era exaltada em uníssono: o virtuosismo na manipulação dos bonecos através da técnica da Luva Chinesa, arte milenar, quase fora dos acontecimentos teatrais no Brasil. Outra questão de destaque: a montagem valorizava de maneira pioneira a cenografia, fato raro até então, quando palcos singelos abrigavam as apresentações de fantoches. Resultado: “Cadê o meu herói” conquistou teatros lotados com até, pasmem, 30 mil pessoas, quase três vezes a lotação do Maracanãzinho.

Atores Agnaldo Souza, Luiz André Cherubini, Sandra Vargas e Maurício Santana
Esse sopro de memória vem a calhar. Agora, para iniciar as comemorações de 40 anos de trajetória, Luiz André Cherubini, Sandra Vargas, Maurício Santana e Agnaldo Souza, retomam aquela história por outro ângulo. Dia 31 de outubro estreia no Teatro I do Sesc Tijuca, às 16h, a inédita e debochada montagem Cadê o Sobrevento?, que evoca a memória de “Cadê o meu herói?”, mas envereda por delirantes caminhos com a mesma ardorosa paixão por trabalhar com a Luva Chinesa. O dramaturgo Horacio Tignanelli também é o autor da peça inédita. O ponto de partida é o misterioso sumiço do Grupo Sobrevento, depois de “um passado de fama e glória”. É diversão garantida e muita surpresa para a plateia. Na ficha técnica está um time de primeira linha como o compositor Arrigo Barnabé, o estilista João Pimenta, a cenógrafa Telumi Hellen e o iluminador Renato Machado. A temporada é realizada através do Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar. Fundado no Rio de Janeiro e hoje sediado em São Paulo, o Grupo Sobrevento apresenta o novo espetáculo até dezembro, aos sábados e domingos, com ingressos populares.
O Sobrevento volta ao Rio, mas sobretudo, ao bairro da Tijuca, ZN, que significa muito para o grupo, que teve sua sede no bairro. “É muito importante estar no Rio, renovar o contato com todos, público e artistas, além de trazer os avanços de uma manipulação de fantoches como raras vezes se viu, uma técnica que nos orgulha muito de trabalhar, porque hoje o Sobrevento é procurado também para ensinar essa metodologia e sua manipulação”, conta o diretor Luiz André Cherubini, carioca e tijucano. A Luva Chinesa, técnica utilizada em Cadê o Sobrevento? pode alcançar movimentos incríveis. Quase um malabarismo, sem exagero. O personagem interpretado pelo ator-manipulador é capaz de realizar desde os gestos mais delicados até ações surpreendentes: a sutileza de servir e tomar chá, por exemplo, ou escalar paredes e mover bastões e espadas.
Toda essa ourivesaria abraça o roteiro de Cadê o Sobrevento?. O deboche e a diversão propostos pelo “sequestro” do Sobrevento mostram um roteiro interessado na reflexão de vários aspectos que vêm se enraizando nas relações interpessoais. Um dos principais é a necessidade de diálogo entre as gerações numa sociedade envolta em medo e isolamento. “Claro, nosso espetáculo também aborda a inevitável e sonhada renovação do mundo e do Teatro. De forma divertida, propõe um outro olhar para os novos tempos, como o Sobrevento tem tratado de fazer a cada espetáculo de sua longa carreira”, completa Luiz André.
Para reciclar o trabalho com a Luva Chinesa, o Sobrevento convidou para um workshop em São Paulo Yeung Fai, marionetista treinado pelo pai e pelo próprio irmão, Yang Feng (que originalmente ensinou aos artistas do grupo a técnica e morreu em 2003). São a quinta geração da sua família a trabalhar com a técnica. “A vinda de Fai promoveu nosso aperfeiçoamento, mas também viabilizou uma oportunidade única de intercâmbio teatral para dezenas de artistas em nosso teatro, em São Paulo”, conta o diretor Luiz André Cherubini. Na época em que montou “Cadê o meu herói?” uma crítica de teatro muito importante disse que seria impossível o Sobrevento trabalhar nessa técnica. “Ela alegava que era um aprendizado histórico, necessário ser desenvolvido ao longo de gerações. Seguimos nos aprimorando, ao contrário do que a crítica avaliou, encontramos um caminho com a Luva Chinesa e fomos muito bem-sucedidos, a ponto de conquistar a admiração de importantes companhias chinesas do gênero. Nós não temos medo dessas técnicas, nem de elementos de tradições muito antigas. E isso porque as misturamos com as nossas próprias tradições. Eu acho que esse desafio é um pouco a base da construção da história do nosso grupo, da nossa companhia”, completa Luiz André.
O argentino Horacio Tignanelli aceitou o convite para escrever Cadê o Sobrevento?. Astrônomo, diretor do Departamento de Difusão Cientifica do Ministério de Educação da Argentina, o autor é um dos maiores nomes da dramaturgia para crianças e do Teatro de Bonecos da América Latina. Para Horacio Tignanelli voltar a encontrar o Sobrevento é pura emoção. Neste depoimento bem-humorado, recupera a amizade longeva com o Grupo. “Ainda que pareça o contrário, os titereiros temos pouco em comum. Posso dizer que entre mim e o Sobrevento há muito em comum, um privilégio de que desfruto desde o século passado. Num caminho tão cheio de silêncios e distâncias como é este em que transitam as pessoas que vivem em países diferentes, a existência de um outro que pensa como você, que sente o mesmo, é um tesouro com que somente a Arte pode nos presentear. Quando o Sobrevento montou ‘Cadê o meu herói?’, ele o converteu em um espetáculo maravilhoso, pela qualidade técnica e genuína sensibilidade que multiplicou minhas intenções originais”, declara Tignanelli.
O cenário de Telumi Hellen, uma das mais importantes diretoras de arte do Brasil, tem 4,30m de largura por 3m de altura. Reproduz o castelo de “Cadê o meu herói?”, onde vivem a Baronesa Colherzinha de Mel e sua filha Rosita. A Baronesa tem horror à ideia da filha sair do castelo para conhecer o mundo. Amarga após o sumiço do Barão, seu marido, tem um comportamento controlador com todos à sua volta. A história muda com a chegada do jovem Pedrinho, carteiro de bem com a vida e inspiração para todos que cruzam seu caminho. “Um dos destaques é a parte do castelo que foi grafitada para, entre outros, mostrar a passagem do tempo do castelo de ‘Cadê o meu herói?’ e da história da Baronesa. Tudo foi feito pelos artistas da Casa Malagueta”, conta Telumi Hellen. Toda a estrutura do cenário é pensada para a estatura dos artistas. O ator e diretor Luiz André Cherubini, de 1,92m, é o mais alto do grupo. A verticalidade reflete essa necessidade de movimentação, mas também chama atenção a circulação horizontal, com toda a dinâmica de manipulação de 20 personagens (sempre com a técnica da Luva Chinesa), interação com a iluminação do premiado Renato Machado e frequente apresentação com instrumentos. O músico Arrigo Barnabé compôs 30 músicas para embalar o espetáculo e a aventura de “Cadê o Sobrevento?”.
Histórico | Fundado em 1986, o Sobrevento é um grupo profissional de Teatro que mantém um repertório de espetáculos e que se dedica à pesquisa, teórica e prática, da animação de bonecos, formas e objetos. Desde sua fundação, o Grupo mantém um trabalho continuado, apresentado em 23 cidades brasileiras, além de constante presença em turnês internacionais: Peru (1988), Chile (1996, 2002, 2009, 2010 e 2017), Espanha (1997, 1999, 2000, 2001, 2004, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2014 e 2018), Colômbia (1998 e 2002), Escócia (2000), Irlanda (2000), Argentina (2001), Angola (2004), Irã (2010), México (2010), Suécia (2011), Estônia (2011), Inglaterra (2013), França (2017), Eslováquia (2018), China (2017 e 2019) e Índia (2020). É um dos principais representantes do Brasil em importantes Festivais Internacionais de Teatro e de Teatro de Bonecos.
O Sobrevento é conhecido pelos espetáculos “Mozart Moments” (1991), “Beckett” (1992), “O Theatro de Brinquedo” (1993), “Ubu!” (1996), “Cadê o meu Herói?” (1998), “O Anjo e a Princesa” (1999), “Brasil para Brasileiro Ver” (1999), “Submundo” (2002), “O Cabaré dos Quase-Vivos” (2006), “O Copo de Leite” (2007), “Orlando Furioso” (2008), “Meu Jardim” (2010), “Bailarina” (2010), “A Cortina da Babá” (2011), “São Manuel Bueno, Mártir” (2013), “Sala de Estar” (2013), “Eu Tenho uma História” (2014), “Só” (2015), “Terra” (2016), “Escombros” (2017), “Noite” (2019), “O Amigo Fiel” (2019), “Pérsia” (2022) e “Pra Lá de Teerã” (2022). O repertório tem recebido, constantemente, Prêmios ou indicações para Prêmios da importância do Mambembe (Funarte/Ministério da Cultura), Shell e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Dirigido, ainda hoje, por Sandra Vargas e Luiz André Cherubini, seus fundadores, o Grupo Sobrevento é reconhecido, nacional e internacionalmente, como um dos maiores especialistas brasileiros em Teatro de Animação e uma das principais Companhias estáveis de Teatro do Brasil.
Luva Chinesa | A origem da arte dos bonecos de luva chineses perde-se no tempo e remonta, possivelmente, ao século XVI. Toda a movimentação dos bonecos demanda um longo treinamento que o Sobrevento desenvolve há quase 30 anos. Nesta técnica, os bonecos podem fazer ações surpreendentes. São jogados para o alto e retomados na mão; lançam flechas; servem e tomam chá; colocam óculos; manejam espadas, lanças e alabardas; lutam; vestem e removem roupas, entre muitas outras possibilidades. O virtuosismo conquistado na elaboração para a criação de “Cadê o meu herói?” resultou na conquista do Prêmio Mambembe, conferido pelo Ministério da Cultura, em 1998.
Dramaturgia | A história de Cadê o Sobrevento? mostra, de forma crítica e muito bem-humorada, as personagens apresentadas no espetáculo “Cadê o meu Herói?” (do mesmo autor) e traça um paralelo entre o que aconteceu com elas, com o Teatro e com o mundo, em um lapso de quase 30 anos. E apesar de tantas mudanças, ou graças a elas, nos damos conta de que, mais do que nunca, precisamos do bom e novo diálogo para resolver os velhos problemas. Assim, quando a história começa, flagramos a Baronesa – outrora uma donzela que conquistou o coração e o castelo do Barão Amaro de Azevedo. Viúva, tornada amarga e rancorosa com o passar do tempo e com a ausência do marido –passar a controlar tudo e todos, como uma tirana impiedosa. Seus soldados, antes alegres, tornaram-se zumbis, monstros e perderam toda a alegria. O castelo, antes dourado, está abandonado, grafitado e tornou-se lúgubre e triste. Naquele ambiente, a filha da Baronesa quer deixar o castelo em busca de seu destino, mas a Baronesa não quer deixá-la partir, afinal de contas o mundo tornou-se perigoso, como atesta o caso do desaparecimento do outrora famoso Grupo Sobrevento. É aí que um jovem carteiro chega ao castelo, com uma mensagem. A Baronesa tenta deter o intruso, buscando atacá-lo, prendê-lo, subjugá-lo e, para isto, lança mão de diferentes monstros, seus paladinos. O jovem, invencível, escapa, dando novos rumos à história, bem diferentes das histórias de heróis do passado.
Ficha técnica:
- Criação: Grupo Sobrevento
- Direção: Luiz André Brasil Cherubini
- Atores – Manipuladores: Agnaldo Souza, Luiz André Cherubini, Maurício Santana e Sandra Vargas
- Dramaturgia: Horacio Tignanelli
- Cenografia: Telumi Hellen
- Cenotécnico: Alício
- Direção musical e músicas: Arrigo Barnabé
- Figurinos: João Pimenta
- Iluminação: Renato Machado
- Figurinos Bonecos: J. E. Tico
- A ssistância figurinos Bonecos: Bernardo
- Técnico de Iluminação: Marcelo Amaral
- Operação de Som e Vídeo: Lupe Cherubini
- Direção de Produção : Sandra Vargas
- Produçao Executiva: Maurício Santana
- Assistente de Produção: Laura Vargas Cherubini
- Assessoria de Imprensa : Mônica Riani
- Programação Visual: Ato Gráfico
Serviço:
Cadê o Sobrevento?
- Criação: Grupo Sobrevento
- Direção: Luiz André Cherubini e Sandra Vargas
- Dramaturgia: Horacio Tignanelli
- Atores-manipuladores: Agnaldo Souza, Luiz André Cherubini, Maurício Santana e Sandra Vargas
- Data: de 31 de outubro a 13 de dezembro
- Dias da semana: Sábado e domingo, 16h
- Local: Teatro I do Sesc Tijuca
- Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539, Rio de Janeiro – RJ
- Ingressos: R$14 (habilitado Sesc), R$10 (meia-entrada), R$18 (conveniado), R$20 (inteira), Gratuito (PCG)
- Venda online no site da Ingresso.com e na bilheteria do teatro
- Bilheteria – Horário de funcionamento:
- Terça a sexta – de 7h às 19h30; Sábados – de 9h às 19h; Domingos – de 9h às 18h.
- Classificação indicativa: Livre | Duração: 60 min
- Lotação: 120 lugares
- Gênero: Infantil
