Em ‘Cara de Nada’, Ademir Luiz discute identidade a partir de um personagem improvável

Obra propõe reflexões sobre quem somos e defende uma literatura infantil que respeite a inteligência do leitor

por Bruno Pirozi

O escritor, historiador e professor universitário Ademir Luiz estreia na literatura infantil com Cara de Nada, obra publicada pela Editora Mondru e ilustrada por Tiago Duarte. O livro parte de uma imagem simples — um menino que se enxerga como um “zero bem redondinho” — para falar sobre identidade, autoestima e pertencimento.

Ao longo da narrativa, o protagonista tenta compreender por que sente que tem “cara de nada”. Situações bem-humoradas, comparações e imagens simbólicas conduzem essa descoberta até que a própria ideia de zero passa a ganhar outro significado.

A matemática entra como uma das principais metáforas do livro. Em determinado momento, o personagem percebe que o zero pode parecer sem valor quando está à esquerda de um número, mas é capaz de transformar um simples um em mil quando colocado à direita. A descoberta ajuda a construir uma reflexão sobre potencial, individualidade e a forma como cada pessoa percebe o próprio lugar no mundo.

A ideia de escrever para crianças surgiu da experiência de Ademir como gestor cultural e crítico literário. Ao acompanhar publicações infantis e infantojuvenis, ele passou a refletir sobre a maneira como algumas obras tratam seus leitores.

“Um livro infantil precisa ser tão caprichado quanto um livro para adultos. Até mais. Estamos falando de leitores em formação”, afirma.

Entre as referências do autor estão A Parte que Falta e A Parte que Falta Encontra o Grande O, de Shel Silverstein. O contato com essas obras reforçou seu interesse por histórias capazes de trabalhar ideias complexas por meio de estruturas aparentemente simples.

Em Cara de Nada, texto e imagem foram pensados para dialogar entre si. Ademir fez os primeiros esboços da proposta visual e convidou Tiago Duarte para desenvolver as ilustrações definitivas.

Zero como metáfora

A história também aborda a expressão das emoções. Ao permitir que o protagonista demonstre fragilidade, o livro questiona ideias como a de que meninos não devem chorar. Em uma das passagens, as lágrimas do personagem se transformam em um mar no qual ele pode “nadar com sua cara de nada”.

Outro aspecto presente na obra é a aproximação com referências do cotidiano das crianças contemporâneas. Cultura pop, ciência, artes, videogames e esportes aparecem como parte de um universo que, para o autor, pode coexistir com a leitura.

“Minha intenção é fazer com que as crianças leiam o livro, entendam sua narrativa, pesquem muitas de suas piadas, mas, ao mesmo tempo, percebam que ele possui outras camadas”, explica.

Cara de Nada é dedicado aos sobrinhos Netto e João Paulo, que inspiraram o projeto. Como desdobramento do lançamento, Ademir também planeja produzir conteúdos para plataformas digitais e considera retomar o personagem palhaço Mirim, que interpretava quando trabalhava com animação de festas infantis.

Sobre Ademir Luiz

Doutor em História, com especialização no período medieval, Ademir Luiz realizou pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Foi bolsista pesquisador do Instituto Camões, de Portugal, e indicado ao Prêmio Capes de Teses.

Professor universitário e presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), é editor do periódico acadêmico Revista Nós: Cultura, Estética e Linguagens. Atua também como romancista, contista, quadrinista e ensaísta.

Entre seus livros estão Apologia ao fim, vencedor do Prêmio Cora Coralina; Fogo de Junho, vencedor do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos; e O Wikiota. Também escreveu o roteiro da graphic novel Conclave, ilustrada por Rafael Campos Rocha, e criou a chamada Teoria do Chaves, publicada na Revista Bula.

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