El Niño chega a nível muito forte e OMM prevê pico em dezembro de 2026

Projeção de até 3,8 °C acima da média no Pacífico aponta possibilidade de evento histórico; no Brasil, previsões indicam mais chuva no Sul e risco de seca no Norte.

por Redação
El Niño chega a nível muito forte e OMM prevê pico em dezembro de 2026

O El Niño de 2026 atingiu a categoria de intensidade muito forte, segundo análise da Meteored baseada no índice relativo utilizado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O fenômeno ainda pode se intensificar: a Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que a anomalia média da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial alcance aproximadamente 3,8 °C entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com pico do aquecimento previsto para dezembro. No Brasil, a perspectiva é de contrastes na distribuição das chuvas, com condições mais úmidas no Sul e mais secas em grande parte do Norte.

Leia em 30 segundos

O El Niño 2026/2027 já alcançou intensidade muito forte no índice relativo da NOAA, com anomalia de +2,0 °C no trimestre de agosto a outubro. A OMM projeta aquecimento ainda maior no Pacífico até o fim do ano, enquanto a NOAA estima em 70% a probabilidade de um evento histórico no trimestre de novembro a janeiro. As previsões indicam risco elevado de extremos climáticos em diferentes regiões, mas não significam que secas ou enchentes ocorrerão em todos os locais apontados.

Destaques

  • Intensidade: o índice relativo RONI alcançou +2,0 °C entre agosto e outubro de 2026, segundo a Meteored.
  • Pico previsto: a OMM projeta anomalia média de aproximadamente +3,8 °C no trimestre de novembro a janeiro, com máximo do aquecimento por volta de dezembro.
  • Possível recorde: a NOAA calcula 70% de probabilidade de um evento histórico no trimestre novembro-janeiro.
  • Brasil: há maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e abaixo da média em grande parte do Norte.

Por que o El Niño de 2026 pode entrar para a história

A intensidade do El Niño é acompanhada por indicadores da temperatura da superfície do Oceano Pacífico equatorial. Uma das principais áreas de monitoramento é a região Niño 3.4, no centro-leste do Pacífico, onde o aquecimento persistente está associado a alterações na circulação atmosférica.

Uma análise publicada pela Meteored em 5 de novembro aponta que o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI) alcançou +2,0 °C na média de agosto, setembro e outubro. Esse patamar corresponde à categoria muito forte.

O boletim da NOAA divulgado em 8 de outubro já indicava intensificação do fenômeno e estimava uma probabilidade superior a 83% de manutenção de condições fortes a muito fortes até o trimestre de janeiro a março de 2027.

A agência também apresentou uma projeção especialmente relevante: 70% de chance de o índice relativo alcançar, no trimestre de novembro a janeiro, uma intensidade superior à dos eventos anteriores da série iniciada em 1950. Trata-se de uma previsão probabilística, não da confirmação antecipada de um recorde.

O que significam as anomalias de 2,0 °C e 3,8 °C

Os dois valores não representam a mesma medida. A distinção é fundamental para compreender a força do fenômeno sem comparar indicadores incompatíveis.

Em fevereiro de 2026, a NOAA passou a utilizar operacionalmente o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), que considera a diferença entre o aquecimento na região Niño 3.4 e o comportamento médio da temperatura nos oceanos tropicais. O objetivo é distinguir melhor o sinal específico do El Niño em um contexto de aquecimento mais amplo dos oceanos.

O Índice Oceânico Niño tradicional (ONI), por sua vez, considera a anomalia em relação a uma referência climatológica. Segundo a análise da Meteored, esse indicador registrou +2,2 °C no trimestre de julho a setembro e +2,5 °C entre agosto e outubro.

A projeção de +3,8 °C divulgada pela OMM utiliza uma medida convencional de anomalia da temperatura da superfície do mar. A Meteored estima que esse cenário poderia equivaler a aproximadamente +3,2 °C a +3,4 °C na escala relativa, mas ressalta que a conversão não é fixa.

Indicadores da intensidade do El Niño em 2026 e projeções para 2027
Indicador Período Anomalia Situação
RONI Agosto a outubro de 2026 +2,0 °C Valor observado, conforme análise da Meteored
ONI tradicional Julho a setembro de 2026 +2,2 °C Valor observado, conforme Meteored
ONI tradicional Agosto a outubro de 2026 +2,5 °C Valor observado, conforme Meteored
Anomalia convencional Niño 3.4 Novembro de 2026 a janeiro de 2027 +3,8 °C Previsão média multimodelo da OMM
Equivalência relativa estimada Novembro de 2026 a janeiro de 2027 +3,2 °C a +3,4 °C Estimativa aproximada da Meteored

Os números representam desvios em relação a referências de temperatura, e não a temperatura absoluta da água. Também é importante distinguir uma média de três meses de um valor máximo diário ou semanal.

OMM prevê pico em dezembro e alerta para efeitos prolongados

Em declaração de 21 de outubro, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, afirmou que o El Niño atual pode alcançar uma intensidade sem precedentes nos registros de monitoramento utilizados nas últimas quatro décadas.

Saulo alertou que o fenômeno deve atingir seu pico perto do fim de 2026, mas seus impactos poderão continuar depois desse período. A declaração acompanha uma atualização climática sazonal que aponta intensificação do aquecimento do Pacífico tropical.

O fim do pico oceânico não significa uma normalização imediata do clima. A resposta atmosférica e os efeitos regionais podem se prolongar, dependendo da evolução da circulação, da umidade disponível e de outros fatores meteorológicos.

Brasil pode ter mais chuva no Sul e seca no Norte

O boletim nº 5 do Painel El Niño, divulgado por instituições brasileiras em 29 de outubro, indica maior probabilidade de precipitação acima da média na Região Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Em contrapartida, grande parte da Região Norte e áreas do Nordeste e do Centro-Oeste apresentam tendência de chuva abaixo da média. A combinação de calor e menor precipitação pode agravar condições favoráveis à propagação de queimadas, especialmente no Norte.

Para as temperaturas, o boletim aponta valores acima da média em quase todo o território nacional, com destaque para o Norte. O Rio Grande do Sul apresenta um comportamento diferente em parte das projeções, com possibilidade de temperaturas abaixo da média.

Essas indicações são tendências para um trimestre. Elas não permitem determinar quanto choverá em cada cidade, nem prever a data de uma enchente ou de uma estiagem apenas com base no estado do El Niño.

Califórnia tem previsão de inverno muito chuvoso

Nos Estados Unidos, a região de São Francisco aparece entre as áreas com sinal consistente de precipitação acima do normal. Segundo reportagem publicada pelo San Francisco Chronicle em 5 de novembro, as 51 simulações do modelo sazonal do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) apontam condições mais chuvosas entre dezembro de 2026 e março de 2027.

A média das simulações é de aproximadamente 26 polegadas de chuva, equivalentes a 660 milímetros, quase o dobro do volume normal para o período. Janeiro aparece como o mês potencialmente mais chuvoso, com previsão superior a 200 milímetros, seguido por fevereiro, com volume próximo de 180 milímetros.

O sinal de consenso entre as simulações aumenta a confiança na tendência sazonal de um inverno úmido, mas não garante um volume exato de chuva nem a ocorrência de tempestades em datas específicas.

Oceano mais quente pode alimentar tempestades

O mesmo modelo prevê aquecimento excepcional da água na costa da Califórnia. Em dezembro, a temperatura do oceano poderá ficar entre 10 e 13 graus Fahrenheit acima do padrão, diferença equivalente a aproximadamente 5,6 °C a 7,2 °C.

Próximo a São Francisco, isso corresponderia a uma temperatura de cerca de 19 °C, contra aproximadamente 12 °C normalmente observados nessa época do ano.

Águas mais quentes favorecem a transferência de umidade para a atmosfera. Quando sistemas de tempestade atravessam essas regiões, podem encontrar condições propícias a precipitações mais intensas, embora a intensidade final dependa de outros fatores atmosféricos.

A perspectiva de chuva acima da média também se estende a outras áreas da Califórnia. Na região montanhosa da Sierra Nevada, parte da precipitação poderá ocorrer como neve, mas temperaturas elevadas podem limitar inicialmente os acumulados às maiores altitudes.

Secas e chuvas intensas podem atingir diferentes partes do mundo

A OMM também alerta para mudanças importantes nos padrões de precipitação em outras regiões. As projeções indicam condições mais secas em áreas do sul da África, do Sudeste Asiático e da América Central, além de risco de deficiência de chuva em partes da Amazônia.

A distribuição dos efeitos não é uniforme. Enquanto determinadas regiões enfrentam maior risco de estiagem, outras podem registrar chuvas acima do normal e episódios de inundação.

Celeste Saulo ressaltou que um El Niño muito intenso não precisa resultar necessariamente em desastre humanitário. Segundo a dirigente, sistemas de alerta antecipado e medidas de preparação são fundamentais para proteger populações vulneráveis.

A evolução do fenômeno continuará sendo acompanhada pelas agências meteorológicas. O próximo boletim mensal de diagnóstico da NOAA está programado para 12 de novembro de 2026.

Perguntas frequentes sobre o El Niño 2026/2027

O El Niño de 2026 já é o mais forte da história?

Não há confirmação definitiva desse recorde. A NOAA estima 70% de probabilidade de que o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027 supere a intensidade dos eventos anteriores de sua série histórica iniciada em 1950, conforme o critério relativo utilizado.

Quando o El Niño deve atingir o pico?

A Organização Meteorológica Mundial prevê que o aquecimento alcance seu pico por volta de dezembro de 2026, dentro de um trimestre em que a anomalia média pode chegar a aproximadamente +3,8 °C.

Qual é a diferença entre o RONI e o ONI?

O ONI tradicional mede a anomalia da temperatura do Pacífico equatorial em relação a uma referência climatológica. O RONI considera também o aquecimento médio dos oceanos tropicais, buscando isolar melhor o sinal específico do El Niño.

O El Niño vai provocar enchentes no Sul do Brasil?

Há maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Isso pode aumentar a preocupação com episódios de chuva intensa, mas a previsão sazonal não confirma que ocorrerão enchentes em determinada cidade.

O fenômeno pode afetar a Amazônia?

Sim. As projeções indicam condições mais secas em grande parte da Região Norte. O risco depende das condições locais, da persistência da falta de chuva e de outros fatores ambientais e meteorológicos.

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