Criada há 21 anos e composta por atores e atrizes negros e negras oriundos da EAD/ECA/USP, a Cia. Os Crespos, sediada em São Paulo, investiga a trajetória do indivíduo negro na sociedade contemporânea, seus desdobramentos históricos e a construção de sua identidade.
No mês da Consciência Negra, a Cia. traz ao Rio o solo que faz um mergulho poético na vida e obra do jornalista e escritor carioca Lima Barreto (1881-1922). Classificado como pré-modernista, Lima usou do realismo e nacionalismo para denunciar a crueldade das relações sociais e raciais no país. Concepção, atuação e dramaturgia são de Sidney Santiago Kuanza, que assina a codireção com Gabi Costa.
O espetáculo é o segundo da trilogia “Masculinidades e Negritudes”, que leva à cena a vida e o pensamento de homens negros expoentes da vida cultural e política do Brasil. O primeiro foi dedicado à Madame Satã (1900-1976) e o terceiro será sobre o poeta Cruz e Sousa (1861-1898), a estrear em 2027.
O solo “A Solidão do Feio”, encenado e escrito por Sidney Santiago Kuanza, da Cia. Os Crespos, apresenta a trajetória do jornalista e romancista carioca Lima Barreto (1881-1922), autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, entre outras obras imortalizadas na literatura brasileira.
Em direção compartilhada com a atriz e diretora Gabi Costa, Sidney, que estuda a obra de Lima há quase 20 anos, buscou ir além da biografia comum que reduz Lima ao homem negro e literato que foi parar no sanatório por problemas com bebida: “Quando penso em Lima Barreto, penso em recontar a história de um homem insubmisso, que pensou o seu tempo e o seu país em profundidade”, afirma o ator e autor.
“A Solidão do Feio é o nosso diário aberto de possibilidades para a existência de Lima Barreto. É o nosso e-mail salvo em rascunhos, que sempre que é revisitado, abre uma nova porta”, completa a diretora.
O espetáculo é o segundo de uma trilogia chamada “Masculinidades e Negritudes”, dedicada a levar aos palcos a biografia e o pensamento crítico de homens negros que tiveram grande impacto na vida cultural e política do Brasil.
O primeiro foi João Francisco dos Santos, artista transformista pernambucano que deu vida à icônica Madame Satã (1900-1976), protagonista da vida boêmia da Lapa do Rio de Janeiro na 1ª metade do século 20. Depois de Lima Barreto, a cia mergulhará na obra do poeta Cruz e Sousa (1861-1898), em espetáculo a estrear em 2027.
SINOPSE
Em um estúdio de cinema improvisado, um ator e sua equipe recriam fragmentos da trajetória da vida e obra do jornalista e escritor Lima Barreto. O personagem é contado em primeira pessoa com suas certezas, contradições e sonhos de futuro.
A MONTAGEM
A encenação começa com um prólogo que se passa ainda fora do teatro – o velório de Lima Barreto, quando o público é convidado a acompanhar a cerimônia. Em seguida, todos são conduzidos ao teatro. A história será contada em fragmentos não cronológicos da vida do escritor.
A ação se passa num pequeno estúdio de cinema. Como uma cena dentro da cena, este estúdio recria a casa de Lima, onde se sucedem momentos emblemáticos da história do escritor. Na esfera pública, o passado escravocrata, os desafios pela inserção na sociedade imperial / republicana, as lutas contra o racismo. Na vida íntima, a solidão, o vício, a loucura e a escrita.
Em mais uma camada de metalinguagem, a casa de Lima vira cinema, e essa “casa-tela”, por meio de projeções, dá a dimensão da rua, da história, das evoluções políticas e possibilita o encontro entre criador e criatura, ou seja, Lima Barreto vê e dialoga com seus personagens. O público acompanha o enredo ouvindo vozes de narradores que dão vida ao pai, mãe e figuras íntimas da personagem.
A estética do abandono está presente na cenografia, figurino e adereços. A escolha de materiais desgastados, empoeirados, antigos, ajuda a dialogar com a ideia de lembrança de um tempo distante. Na sonoplastia, a pesquisa aposta no maxixe, no samba-canção e outras sonoridades do século 19 e início do 20.
A PEQUISA
As fontes de pesquisa foram os livros “Lima Barreto – Triste Visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz, da Companhia das Letras; “Diário do Hospício & Cemitério dos Vivos”, também da Companhia das Letras; “A vida de Lima Barreto”, de Francisco Assis Barbosa, da Ed. José Olympio; e “Lima Barreto e a Política: os contos Argelinos e Outros Contos”, de Mauro Rosso.
No campo do cinema, foram fonte os filmes “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”, de Paulo Thiago, com Paulo José e Giulia Gam; o curta-metragem “O moleque”, de Ari Candido; e o longa “Lima Barreto ao Terceiro Dia”, de Luís Antônio Pilar.
RESIDÊNCIA E ENCONTROS
Fazem parte ainda da temporada carioca uma residência artística e dois encontros:
Residência artística “Corpo 21 – Ciclo Barretiano” – Poéticas Crespas Com Sidney Santiago Kuanza
Dias: 26 e 27/11 e 03 e 04/12 – 14h30 às 17h
Encontros críticos “Lima Barreto às Crespas”
. Sábado, 28/11, às 15h
“A Luz de Lima Barreto”, com Hilton Cobra e Leandro Santana, mediação de Carmen Luz
. Sábado, 05/12, às 15h
“A Política, a Cidade e a Militância de Lima Barreto”, com Beatriz Resende, Thiago André e Luís Antônio Pilar, mediação de Sol Miranda
. Mais informações em https://www.ciaoscrespos.com.
https://www.instagram.com/
LIMA BARRETO (1881-1922)
Importante escritor, jornalista e cartógrafo afro-brasileiro. Sua obra está impregnada de fatos históricos e de uma perspectiva negra diante das evoluções e retrocessos políticos do Brasil. A paisagem da escravidão, do racismo estrutural e das desigualdades sempre estiveram em suas páginas. Lima foi um pensador do seu tempo e de sua terra. Deixou obras célebres da literatura brasileira: “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909), “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1911), “Clara dos Anjos” (1948), “Cemitério dos Vivos” entre outras.
Serviço
ESTREIA: dia 12 de novembro (5ªf), às 20h30
ONDE: Mezanino do Sesc Copacabana
R. Domingos Ferreira, 160, Copacabana / RJ. Tel: (21) 3180-5226
HORÁRIOS: 5ª e 6ª às 20h30, sab e dom às 19h / INGRESSOS: R$ 40 (inteira); R$36 (conveniados), R$31 (conveniados empresários), R$28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia); gratuito (público PCG) em www.ingresso.com ou na bilheteria 3ª a 6ªf das 9h às 20h; sab, dom e feriados das 13h às 19h / CAPACIDADE: 60 lugares / DURAÇÃO: 80 min / GÊNERO: drama / CLASSIFICAÇÃO: 12 anos / ACESSIBILIDADE: sim / TEMPORADA: até 06 de dezembro
FICHA TÉCNICA
- Concepção, Dramaturgia e Atuação: Sidney Santiago Kuanza
- Direção: Gabi Costa e Sidney Santiago Kuanza
- Dramaturgia de Imagens e Desenho de Som: Eduardo Alves
- Direção de Arte: Jandilson Vieira
- Cenografia: Wanderley Wagner
- Figurino e Trilha Sonora: Sidney Santiago Kuanza
- Aderecista e Desenho de Traje: Thiago Figueira
- Criação de Figurino Especial Lima Barreto: Zebu
- Peças Acervo: Hilda Marinho
- Iluminação: Denilson Marques
- Vozes off: Darília Ferreira, Heitor Goldflus e Pedrão Guimarães
- Atriz Convidada (participação em off): Lucelia Sergio
- Jornalista Colaborador: Nabor Júnior
- Técnicos de Audiovisual: Allysson e Mar Zenin
- Técnicos de Luz: Gui Pereira e Sandro Demarco
- Contrarregra: Fredo Peixoto e Juan Patrick
- Fotografia: Bob Sousa, Matheus José Maria e Milena Aurea
- Comunicação: Rafael Ferro e Sidney Santiago Kuanza
- Designer: Rodrigo Kenan
- Apoio: Ocupação 9 de Julho e Teatro de Container
- Transporte de Cenário: Hugo Torrens Soria e Leandro Oliveira (Vidas Transportes)
- Direção de Produção: Rafael Ferro e Sidney Santiago Kuanza
- Produção Executiva: Jandilson Vieira
- Assistente de Produção: Lucas Ramos
- Realização: Sesc RJ, Cia Os Crespos e Selo Homens de Cor
- Assessoria de Imprensa RJ: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
SIDNEY SANTIAGO KUANZA
Ator, diretor, dramaturgo, cineasta, diretor de casting, produtor, pesquisador, curador, educador e ativista cultural. Sua trajetória articula criação artística, pensamento crítico, formação e produção cultural, com pesquisas sobre memória negra, masculinidades, representação, território e políticas culturais.
Nascido na Ilha de Santo Amaro, no Guarujá (SP), teve contato com as artes desde muito jovem. Dançou durante nove anos antes de se aproximar da poesia e do teatro. É formado pela Escola de Arte Dramática da ECA/USP e estudou Sociologia e Política na FESP-SP. É cofundador da Cia Os Crespos, criada em 2005, e idealizador e editor da Revista Legítima Defesa, publicação dedicada ao Teatro Negro brasileiro.
“Negror em Paisagens”, primeiro longa-metragem de Sidney Santiago Kuanza como realizador, está em fase de finalização. O projeto investiga o genocídio da juventude negra no Brasil, articulando violência, território, memória, representação e resistência. Em seu percurso de desenvolvimento e articulação audiovisual, o projeto passou por CineMundi, DOCSP e Ventana Sur, na Argentina.
CIA OS CRESPOS
Coletivo teatral de pesquisa cênica e audiovisual, debates e intervenções públicas, composto por atores e atrizes negros e negras. Formou-se na Escola de Arte Dramática EAD/ECA/USP e está em atividade desde 2005. A Cia. trabalha, há dezesseis anos, a construção de um discurso poético que debata a sociabilidade do indivíduo negro na sociedade contemporânea, seus desdobramentos históricos e a construção de sua identidade, aliado a um projeto de formação de público e aperfeiçoamento estético.
A Cia circulou com espetáculos, intervenções e palestras por diversas cidades e estados do país, além de apresentações na Alemanha e Espanha. Tem em seu repertorio 7 espetáculos teatrais, 11 intervenções urbanas; a elaboração e publicação da revista de teatro negro Legítima Defesa, que vai para seu quarto número; a Mostra Cinematográfica Faz lá o Café em parceria com o Grupo Clariô de Teatro, os curtas D.O.R, Nego Tudo e Imagem Autoimagem; e desde 2018, a Cia promove as “Segundas Crespas”, encontros entre artistas para discutir arte negra e é uma das organizadoras do Fórum de Performance Negra de São Paulo.
Entre os principais trabalhos, estão: Anjo Negro + A Missão (2006) dirigida pelo alemão Frank Castorf, diretor do Teatro Volksbühne; Ensaio Sobre Carolina, texto e direção de José Fernando Peixoto de Azevedo (2007); a trilogia Dos Desmanches Aos Sonhos (2011-2013), que investiga o impacto da escravidão na forma de amar dos brasileiros e é composta pelos espetáculos Além do Ponto, com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, Engravidei, Pari cavalos e Aprendi a Voar sem Asas e Cartas à Madame Satã ou me Desespero Sem Notícias Suas, ambos com direção de Lucelia Sergio. Os Coloridos (2015) texto de Cidinha da Silva e Alguma Coisa a Ver Com Uma Missão (2016) que tem dramaturgia de Allan da Rosa.
