Existe roupa que sabe demais sobre a gente

Tem roupa que a gente não usa há anos, sabe que provavelmente nunca mais vai usar e, mesmo assim, não consegue doar. Não é apego à peça. É que algumas roupas estavam lá quando a vida aconteceu. E talvez saibam coisas demais sobre nós para simplesmente terminarem em uma sacola

por Katharine Reston
Existe roupa que sabe demais sobre a gente

Esses dias pensei em como algumas roupas sobrevivem a praticamente tudo. Ao nosso gosto, ao nosso corpo, às tendências e até à versão de nós que um dia escolheu comprá-las. Elas ficam. Às vezes espremidas no fundo do armário, às vezes dobradas naquela gaveta que quase nunca abrimos, mas ficam. E basta decidir fazer uma limpa para acontecer a mesma coisa: pegamos a peça, olhamos por alguns segundos, pensamos “não uso isso há séculos” e, ainda assim, colocamos de volta. Eu faço isso. E desconfio que muita gente também. Porque, em alguns casos, a pergunta já não é se aquela roupa ainda combina com a gente. É tudo o que aconteceu enquanto estávamos com ela no corpo.

Tem o vestido daquele aniversário. A roupa do primeiro encontro. A camisa escolhida para uma entrevista de emprego quando parecia que o futuro inteiro dependia de causar uma boa impressão. Tem a roupa da viagem que você passou meses planejando, aquela que aparece em quase todas as fotos e que, depois, nunca mais teve a mesma graça fora daquele lugar. Mas nem todas guardam histórias felizes. Algumas estavam ali em términos, hospitais, velórios, despedidas e dias que gostaríamos de esquecer. E isso sempre me pareceu curioso: a gente escolhe uma roupa pela manhã sem fazer ideia de que, algumas horas depois, ela pode estar ligada para sempre a uma lembrança.

Talvez seja essa uma das coisas que mais me fascinam na moda. Falamos tanto sobre tendência, coleção, desejo, consumo, o que entra e o que sai, que às vezes esquecemos do que acontece depois que a roupa chega ao armário. Porque é aí que começa a parte que nenhuma marca consegue prever. A peça deixa de pertencer à coleção de uma temporada e começa a pertencer à nossa história. Ela vai trabalhar, dança, viaja, senta no chão, recebe abraço, pega chuva, ganha mancha, perde botão. Vive uma vida que não estava no editorial, na vitrine ou na campanha que fez alguém desejá-la.

Existe roupa que sabe demais sobre a gente

E roupa tem essa intimidade estranha porque estava literalmente no nosso corpo enquanto tudo acontecia. Talvez por isso certas lembranças venham acompanhadas de detalhes aparentemente bobos. Eu lembro do que estava vestindo. Lembro do perfume. Lembro de como tinha arrumado o cabelo. Lembro de um brinco. Não porque naquela hora eu soubesse que aquilo seria importante, mas porque a memória escolhe caminhos muito particulares para permanecer. Às vezes ela não guarda uma conversa inteira, mas guarda perfeitamente a cor de um vestido.

Também acho curioso quando encontramos uma peça que ainda serve perfeitamente, mas já não parece nossa. O corpo cabe, mas você não cabe mais ali. E não estou falando de tamanho. É olhar para aquela roupa e reconhecer imediatamente a mulher que a comprou, mesmo sabendo que muita coisa aconteceu desde então. Talvez ela tivesse outros planos, outros medos, outro emprego, outras pessoas por perto. Talvez achasse que aos 30 e poucos já teria entendido uma porção de coisas que continua tentando entender. Algumas roupas acabam funcionando quase como fotografias de versões nossas que não existem exatamente daquele jeito.

É aí que fazer uma limpa no armário deixa de ser tão simples quanto separar três pilhas entre “fica”, “doa” e “joga fora”. Porque como colocar memória em uma dessas categorias? Eu acredito em desapego, inclusive acho uma delícia abrir espaço e perceber que determinada peça pode continuar sua história com outra pessoa. Mas também não acho que tudo precise ser útil para merecer ficar. Tenho dificuldade com essa obrigação contemporânea de justificar cada coisa que possuímos. Às vezes aquela camiseta velha fica porque sim. Porque você olha para ela e lembra. E pronto.

Talvez seja também por isso que algumas peças tenham um valor completamente incompreensível para qualquer outra pessoa. Alguém pode olhar e enxergar uma camiseta gasta. Você enxerga uma viagem inteira. Alguém vê um vestido que já saiu de moda. Você lembra exatamente de quem estava sentado à mesa naquela noite. Para outra pessoa, é só tecido. Para você, existe uma vida ali dentro.

No fim, nossos armários contam histórias muito melhores do que imaginamos. Não apenas sobre aquilo de que gostamos, mas sobre quem fomos, quem tentamos ser e quem acabamos nos tornando. Existem roupas que acompanharam versões nossas que já ficaram para trás e outras que, sem percebermos, estavam presentes quando uma nova começava.

Então talvez aquela peça que você insiste em guardar não esteja ocupando espaço à toa. Talvez ela simplesmente saiba demais.

E, sinceramente? Algumas eu também não teria coragem de mandar embora.

 

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