A roupa que você usa quando precisa de coragem

por Katharine Reston
A roupa que você usa quando precisa de coragem

Existem dias em que a gente escolhe a roupa pensando no lugar. Em outros, escolhe pensando na pessoa que precisa conseguir ser quando chegar lá. Pode ser uma entrevista, uma conversa difícil, um primeiro encontro, uma apresentação ou aquele reencontro que parecia muito mais simples quando ainda estava longe de acontecer. Nessas horas, algumas peças fazem uma coisa curiosa: não mudam absolutamente nada do que está prestes a acontecer, mas fazem a gente sentir que talvez consiga enfrentar.

Todo mundo provavelmente tem alguma versão dessa roupa.

Não precisa ser um blazer perfeitamente cortado, um salto alto ou qualquer uma dessas peças que aprendemos a associar à ideia de poder. Às vezes é justamente o contrário. Pode ser uma camiseta que já viveu dias importantes, uma calça que veste exatamente como deveria, um vestido que muda a postura assim que o zíper fecha. Pode ser um brinco, um relógio, uma bolsa ou até uma lingerie que ninguém vai ver.

O importante não parece estar exatamente na peça.

Está no que acontece quando ela entra no corpo.

Existem roupas que nos deixam conscientes demais de nós mesmas. A alça que precisa ser ajeitada, o tecido que incomoda, a cintura que aperta quando sentamos. Em um dia comum, talvez isso seja apenas irritante. Quando já estamos nervosas por alguma outra razão, é praticamente insuportável. Talvez por isso, nos dias que importam, exista uma tendência de procurar aquilo que já conhecemos.

A roupa que não exige atenção.

Porque a atenção já está ocupada com outras coisas.

Talvez seja por isso também que, antes de uma entrevista ou de uma conversa importante, experimentar cinco looks diferentes pareça fazer algum sentido. Não estamos necessariamente procurando o mais bonito. Estamos tentando encontrar aquele em que alguma coisa encaixa.

Aquele que faz olhar para o espelho e pensar: agora vai.

Não significa que vai.

Mas ajuda.

A roupa que você usa quando precisa de coragem

A moda fala muito sobre imagem, identidade e sobre aquilo que comunicamos aos outros. Só que existe uma conversa que acontece antes de qualquer outra pessoa nos ver. É aquela diante do espelho, quando decidimos se aquela roupa nos deixa confortável, bonita, segura, interessante ou simplesmente parecida conosco.

Em determinados dias, essa conversa importa bastante.

Talvez porque roupa também tenha memória. Uma peça que já esteve conosco em momentos em que tudo deu certo acaba acumulando uma espécie de currículo particular. A calça usada numa apresentação importante. O vestido de uma noite boa. O brinco que estava ali quando recebemos uma notícia que queríamos muito.

Não existe qualquer garantia de repetição, obviamente.

Ainda assim, escolhemos de novo.

Existe até alguma superstição nisso. Como se a roupa pudesse guardar um pouco da coragem que tivemos da última vez.

E não acho que seja preciso acreditar que uma peça realmente tenha esse poder para entender o mecanismo. O corpo responde à roupa. A postura muda. O jeito de andar muda. Às vezes até a maneira como entramos em uma sala parece diferente.

Não porque um sapato tenha resolvido nossas inseguranças no caminho.

Seria ótimo se fosse tão simples.

Mas talvez ele tenha feito alguma coisa menor e, naquele momento, suficiente: lembrado que já estivemos naquela versão antes.

É por isso que a ideia de “roupa de poder” sempre me pareceu um pouco limitada quando reduzida a determinadas peças. Poder não está necessariamente em parecer séria, sofisticada ou importante. Às vezes a roupa que dá coragem é justamente aquela em que não precisamos representar nada.

Aquela em que reconhecemos a pessoa do espelho.

E talvez seja essa a verdadeira função dessas pequenas armaduras que guardamos no armário.

Não nos proteger do que está do outro lado da porta.

Só ajudar a lembrar, antes de abri-la, que conseguimos atravessar.

 

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Compartilhe
Send this to a friend