Fabiana Mattedi estreia primeiro monólogo em Nova York com reflexão sobre envelhecimento e identidade

por Redação
Fabiana Mattedi

Fabiana Mattedi vai estrelar o primeiro monólogo de sua carreira em NY. Trata-se de “Notes on Collagen: Notas sobre Colágeno”, que traz um relato, com muito humor, sobre beleza, envelhecimento e identidade. Nele, uma mulher imigrante de meia-idade se vê, inesperadamente, questionando e desconstruindo as ilusões de confiança e segurança que a sociedade promete por meio da juventude e da aparência.  A temporada de quatro apresentações em inglês acontecerá nos dias 4,7, 11 e 16 de abril no New York City Fringe Festival.

Graduada em Artes Cênicas pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia — a primeira instituição do gênero no Brasil — e formada na Actors College for Theatre and Television, em Sydney, Austrália, Fabiana Mattedi começou a carreira em 1999. Em seu currículo constam a peça “Nada será como antes”, nos palcos do Rio de Janeiro, e participações no extinto “Zorra total”, da Globo, e no humorístico “De cabelo em pé”, no Multishow.

Morando em NY desde 2017, Fabiana Mattedi fez parte do elenco da produção Off-Broadway em maio deste ano do clássico “Vestido de noiva” de Nelson Rodrigues e em 2024, participou como protagonista do show “Sins of the South”, disponível na plataforma Oxygen True Crime.

Baiana, Fabiana Mattedi também já foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo Brazilian International Press Awards por seu trabalho no evento “Hora de Clarice”, uma celebração mundial pelo aniversário da escritora Clarice Lispector, e em 2018 integrou o elenco na montagem  “Dentro do Coração Selvagem”, com o Group.BR – única companhia brasileira em NY – um espetáculo imersivo também com base na obra de Clarice, que também ganhou temporada online durante a pandemia.

Fabiana Mattedi

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ENTREVISTA

Como é levar aos palcos “Notas sobre colágeno”, uma peça sobre etarismo e envelhecimento?

Tenho percebido que essa discussão aparece cada vez mais em livros, filmes e diferentes meios de comunicação, o que me leva a entender que, embora seja um solo autoral, ele também dialoga com um movimento mais amplo, quase como parte de uma corrente coletiva e universal.

Acredito que seja fundamental trazer esse tema à tona, em vez de mantê-lo oculto. Quando algo é colocado em evidência — iluminado pela consciência — inevitavelmente provoca uma reflexão. Há um certo alívio em reconhecer que não estamos sós nas nossas inquietações, que outras pessoas também vivenciam, viveram ou ainda viverão experiências semelhantes.

Estou lendo a biografia de Al Pacino e é curioso perceber como até uma figura tão emblemática de Hollywood, frequentemente associada a uma ideia de sucesso e estabilidade, também se debruça sobre essas questões. Ele comenta sobre a perda de papéis com o passar dos anos e reflete sobre a finitude da vida — o que reforça como o envelhecimento atravessa a todos, independentemente de status ou profissão.

Envelhecer é uma experiência inevitável, (se você tiver tido sorte de envelhecer e não morrer antes) que traz limitações em diversas dimensões — não apenas na carreira, mas também no corpo, nas relações e na forma como nos percebemos no mundo. Ao mesmo tempo, talvez resida aí uma potência: a possibilidade de ressignificar essas mudanças e construir novos sentidos para essa fase da vida.

Esse é seu primeiro monólogo da carreira e ainda o fará em inglês em NY. Qual a expectativa para ver seu projeto autoral sendo recebido pelo público americano?

A expectativa é grande. Fazer um solo já é um desafio por si só, e ainda mais em uma língua que não é a minha — mas isso também faz parte da proposta do próprio trabalho. O texto fala sobre imigração, sobre deslocamento, pertencimento e adaptação, então apresentar em inglês acaba sendo uma extensão natural dessa experiência.

Além disso, Nova York é uma cidade formada majoritariamente por imigrantes, o que faz com que a recepção tenda a ser muito empática e aberta a esse tipo de narrativa. Eu já tive uma resposta muito positiva em uma apresentação anterior, em que o solo foi muito bem recebido, o que me deixa ainda mais confiante para esse encontro com o público americano.

Fabiana Mattedi

Fabiana Mattedi

Como é escrever, montar e atuar numa criação própria?

Notas sobre Colágeno, meu primeiro solo autoral, conta com a produção da brasileira Luísa Galatti, também radicada nos Estados Unidos, e produção executiva da americana Covi Loviridge Brannan.

Tem sido um processo desafiador encarar esse texto — escrito há alguns anos — como meu primeiro solo. Na época em comecei a escrever, eu não o via como um material além de uma reflexão íntima sobre uma situação concreta e cotidiana. Com o tempo fui abrindo novas camadas dentro da escrita, descobrindo brechas que expandiram meus próprios questionamentos.

Assim, o trabalho vem ganhando, gradualmente, um contorno mais amplo, atravessado pelo momento que vivo hoje: a meia-idade, a menopausa, o envelhecimento e a constante tensão diante dos padrões de beleza impostos pela sociedade e pelo patriarcado.

O solo acabou se transformando em um espaço de exposição e investigação — um desnudamento que acontece tanto diante do público quanto internamente. Ao mesmo tempo, ele também cria a possibilidade de identificação e diálogo, tocando em experiências que, embora pessoais, são profundamente coletivas e compartilhadas por tantas outras mulheres.

Há novos projetos em vista?

Sim, tenho outros projetos que quero desenvolver, ideias que me atravessam e que pretendo tirar do papel no momento certo. Mas, agora, estou muito focada neste solo e em todas as suas possibilidades — de circulação, amadurecimento e aprofundamento. Sinto que ainda há muito a explorar dentro desse trabalho antes de partir para novos caminhos, então este é um momento de presença e dedicação total a ele.

E há planos para trazer o espetáculo para o Brasil?

O solo teve uma estreia preliminar no ano passado, em um teatro aqui de Nova York, o The Tank, e agora integra a programação do New York City Fringe Festival em abril. No momento, nosso foco está em ampliar as oportunidades de temporada nos Estados Unidos, além de buscar festivais alinhados ao perfil do trabalho, onde possamos apresentá-lo e fortalecê-lo.

Sem dúvida, a possibilidade de retomar esse projeto no Brasil — levando, por exemplo, esse solo — seria extremamente especial e carregada de significado. Ao mesmo tempo, entendemos que este é um momento importante para consolidar o projeto no contexto em que ele foi criado, explorando com mais profundidade o mercado e as conexões que surgiram a partir dele.

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