Carla Cottini vai da canção de câmara à ópera em nova temporada brasileira entre novembro e dezembro

Soprano ítalo-brasileira radicada em Berlim apresenta repertórios que aproximam a música europeia da brasileira e encerra o ano no Theatro São Pedro; a experiência de ser mãe pela segunda vez também atravessa esta nova etapa de sua trajetória

por Jorge Rodrigues
Carla Cottini Foto por Anne Wilk

De volta ao Brasil para uma temporada de apresentações entre 24 de novembro e 20 de dezembro, a soprano ítalo-brasileira Carla Cottini percorrerá uma programação que vai da canção de câmara à gala lírica, aproximando repertórios europeus e brasileiros e dando visibilidade a compositoras pouco conhecidas. Radicada em Berlim desde 2019, a cantora volta ao país com os dois filhos pequenos, em uma fase que tem impulsionado a evolução de sua carreira e sua maneira de viver a música. “A maternidade é um movimento de 180º. E isso impacta completamente minha arte. Não sou mais a mesma pessoa e a mesma artista, e isso é muito transformador”, afirma.

A temporada começa em 24 de novembro, na Estação Motiva Cultural, no complexo da Sala São Paulo, com Travessias: de Schubert à MPB. Ao lado de Lívia Nestrovski, do pianista Ricardo Ballestero e do clarinetista Bruno Ghirardi, Carla participa de um programa que aproxima a canção de concerto europeia da música popular brasileira, explorando as relações entre música, palavra e expressão poética.

O ponto de partida é Der Hirt auf dem Felsen (O Pastor sobre a Rocha), de Franz Schubert, obra para voz, clarinete e piano que evoca vastidões e distâncias. O repertório estabelece conexões entre Schubert e Gustav Mahler e compositores brasileiros como Helza Camêu, Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, André Mehmari e Dorival Caymmi. As versões de Arthur Nestrovski para canções do romantismo alemão, com textos em português, criam uma ponte entre esses universos.

A proposta surgiu de um convite da jornalista e historiadora Camila Fresca, curadora da Estação Motiva Cultural, a Ballestero para desenvolver programas que aproximassem a canção de câmara e a música popular brasileira. “As versões são um ponto de encontro desses dois mundos, porque o universo poético do Arthur é bem brasileiro e contrasta lindamente com a música romântica. Daí teremos a união de três mundos: um alemão, outro brasileiro e um híbrido, de música alemã com texto brasileiro”, explica o pianista.

Entre o mar, o céu e as vozes femininas

Em 26 de novembro, Carla apresenta Cantos do Mar e do Céu na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, como parte do II Encontro Internacional da Associação Brasileira de Piano Colaborativo (ABPC). O evento, realizado de 25 a 27 de novembro, reúne concertos, palestras, masterclasses e simpósio científico. Ao lado de Ballestero e Ghirardi, a soprano participa como artista e professora convidada.

O trio volta a apresentar o programa em 6 de dezembro, no Theatro São Pedro, em São Paulo, pela série de música de câmara Além do Palco. A seleção reúne canções, obras instrumentais e arranjos conectados por imagens de natureza, memória, amor e esperança. O repertório apresenta peças de Helza Camêu com poemas de Florbela Espanca, Vicente de Carvalho e Olegário Mariano, transcrições e arranjos de canções tradicionais, além de obras de José Siqueira, Francisco Mignone, Eunice Katunda, Oscar Lorenzo Fernández, Ronaldo Miranda, Clara Schumann, Mahler – com a Sinfonia n. 4 em arranjo de Arnon Zimra – e Schubert, entre outros. Entre os destaques está Estro Africano nº1 e Em Louvor a Oxum, de Katunda.

A presença de Helza Camêu também se conecta a uma pesquisa que Carla e Ballestero desenvolvem para recuperar e divulgar a produção de compositoras brasileiras que tiveram pouca circulação. Em 2026, os dois lançaram o single Saudade, composição de Helza com poema de Vicente Carvalho, como primeiro passo de um projeto mais amplo. “Através das nossas pesquisas e explorações percebemos que temos um tesouro enorme a ser descoberto. Essas gravações são um preâmbulo de um projeto mais ambicioso para registrar mais obras de Helza, mas também de outras tantas compositoras”, conta Ballestero.

A temporada chega à etapa final no Theatro São Pedro com a Gala Lírica, nos dias 19 e 20 de dezembro, precedida por um ensaio aberto no dia 18. Carla divide o palco com o tenor Giovanni Tristacci e a Orquestra do Theatro São Pedro, sob regência de Gabriel Rhein-Schirato. O repertório reúne árias, duetos e aberturas de óperas e operetas de Charles Gounod, Georges Bizet, Emmerich Kálmán e Franz Lehár.

A primeira parte destaca o repertório francês, com trechos de Mireille, Roméo et Juliette, Faust e Carmen. Após um breve intervalo, o programa percorre operetas como Die Csárdásfürstin, Giuditta, A Viúva Alegre e Das Land des Lächelns. “Adoro trabalhar com o maestro Gabriel Rhein-Schirato, adoro cantar com Giovanni e amo o Theatro São Pedro. O repertório de opereta que tenho explorado intensamente na Alemanha ao longo dos últimos anos tem muito a ver com esse programa inebriante, gostoso e dançante”, diz Carla. Para ela, os concertos oferecem um contraste com o recital de câmara, permitindo explorar diferentes vertentes da música de língua alemã em um curto intervalo de tempo.

Carla Cottini e Ballestero por Sergio Santoian

Carla Cottini e Ballestero por Sergio Santoian

Maternidade, carreira e novas escutas

Nascida em São Paulo, Carla vive em Berlim com o marido, a filha Sofia, de 4 anos, e Piero, de 5 meses. A experiência da segunda maternidade trouxe desafios que vão além da rotina familiar. A soprano conta ter perdido um trabalho recente que desejava realizar em razão do nascimento do filho e chama atenção para a falta de apoio às mulheres que tentam conciliar a vida profissional e os cuidados com as crianças.

A vivência de ser mãe pela segunda vez também mudou sua percepção sobre o tempo, as prioridades e a própria música. “Costumo cantar para os meus filhos e percebo o poder que a música tem para eles. Esse simples gesto resolve um monte de situações e toca imediatamente a alma deles. Quando a Sofia canta ou quando o Piero começa a balbuciar, o som que eles produzem aquece meu coração”, conta.

Para a soprano, reconhecer os limites das mães e criar redes de apoio é uma responsabilidade coletiva. “É preciso entender os limites das mães e apoiar para que cada uma delas consiga fazer todas as coisas que deseja. Minha vinda para o Brasil tem muito a ver com isso. Gostaria de incentivar as mulheres a falarem daquilo que não é falado e de mostrar o real poder do feminino, que é gigante. Como seria bonito se a gente conseguisse se apoiar como sociedade. O provérbio africano que diz que ‘é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança’ é um ensinamento urgente e fundamental para a humanidade”, conclui Carla Cottini.

Essa atenção às vozes pouco ouvidas também tem atravessado, cada vez mais, os projetos musicais da cantora. Em Berlim, Carla prepara uma parceria com a maestra Andréa Botelho para desenvolver e apresentar, em 2027, um repertório inteiramente brasileiro, incluindo obras escritas em línguas de povos originários.

Carla Cottini

Nascida em São Paulo e radicada em Berlim desde 2019, a soprano ítalo-brasileira Carla Cottini construiu carreira em palcos líricos do Brasil e da Europa, com atuação em ópera e música de câmara. Mestre em Interpretação Operística pelo Conservatório Superior de Música Joaquín Rodrigo, em Valência, recebeu o Prêmio Revelação do 10º Concurso de Canto Maria Callas, em 2011. Seu repertório inclui papéis em obras de Mozart, Donizetti, Puccini, Verdi, Bellini, Massenet e Debussy. Em 2025, voltou ao Theatro Municipal de São Paulo como Zerlina, em Don Giovanni, e estreou no Festival de Música do Espírito Santo como Vivie, em A Profissão da Senhora Warren. Em janeiro de 2026, protagonizou La Serva Padrona e La Contadina, no Teatro B32, em São Paulo. Saiba mais em: www.carlacottini.com

SERVIÇO

Travessias: de Schubert à MPB

  • 24 de novembro de 2026, às 20h30
  • Estação Motiva Cultural – complexo da Sala São Paulo
  • Com Carla Cottini, Lívia Nestrovski, Ricardo Ballestero e Bruno Ghirardi.

Cantos do Mar e do Céu – II Encontro Internacional da ABPC

  • 26 de novembro de 2026, às 11h
  • Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro
  • Com Carla Cottini, Bruno Ghirardi e Ricardo Ballestero.

Além do Palco – Cantos do Mar e do Céu 

  • 6 de dezembro de 2026, às 17h
  • Theatro São Pedro, São Paulo
  • Com Carla Cottini, Bruno Ghirardi e Ricardo Ballestero.

Gala Lírica

  • Ensaio geral: 18 de dezembro de 2026, às 19h
  • Apresentações: 19 de dezembro, às 20h, e 20 de dezembro, às 17h
  • Theatro São Pedro, São Paulo
  • Orquestra do Theatro São Pedro, regência de Gabriel Rhein-Schirato, Carla Cottini e Giovanni Tristacci.

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