Do souk ao frasco: a tradição do perfume no mundo árabe e o que ela conta sobre cultura

O Sabah Al Ward traz no nome um bom-dia árabe e, no frasco, jasmim, flor de laranjeira e baunilha

por Redação
Do souk ao frasco: a tradição do perfume no mundo árabe e o que ela conta sobre cultura

Em boa parte do mundo árabe, quem ouve “sabah al khair”, o bom-dia mais comum, pode responder com uma variante mais afetuosa: “sabah al ward”, manhã de rosas. A expressão virou nome de perfume. O Sabah Al Ward, da casa Al Wataniah, pega emprestado um cumprimento cotidiano e o transforma em fragrância, o que diz muito sobre o lugar que o cheiro ocupa na vida social da região.

O detalhe não é casual. Na tradição do Oriente Médio, perfume nunca foi só vaidade individual. Ele passa pela casa, pela roupa, pela mesquita, pelo casamento e, sobretudo, pela forma de receber quem chega.

Entender esse percurso ajuda a ler de outro jeito os frascos dourados que hoje ocupam vitrines no Rio, em São Paulo e em qualquer shopping do país.

O perfume como gesto de hospitalidade

Em muitas casas do Golfo, a visita começa com café de cardamomo e tâmaras e termina com fumaça. O anfitrião acende o bakhoor, lascas de madeira embebidas em óleos aromáticos, resinas e açúcar, sobre brasas num incensário chamado mabkhara, e o objeto passa de mão em mão. Cada convidado aproxima a fumaça da roupa, das mangas, às vezes do cabelo. É um jeito de dizer que a pessoa foi bem recebida e vai levar a casa consigo por algumas horas.

Nas grandes ocasiões, o ritual se amplia. Antes de um casamento ou das celebrações que encerram o Ramadã, é comum que a casa seja perfumada com antecedência, que as roupas de festa passem pela fumaça do incensário e que os convidados encontrem frascos de óleo à disposição na entrada. O cheiro marca a data na memória tanto quanto a comida e a música, e muita gente associa, anos depois, determinado perfume a determinada festa de família. Não por acaso, oud e rosa aparecem com frequência em presentes de noivado.

Água de rosas borrifada sobre as mãos dos hóspedes cumpre função parecida em diversas regiões. Nos dois casos, o cheiro funciona como linguagem. Não é preciso dizer nada: a fragrância fala de cuidado, de festa, de respeito.

Essa dimensão coletiva explica uma característica que o público brasileiro costuma notar logo de cara, a intensidade. Um perfume pensado para acompanhar encontros, impregnar tecidos e perfumar ambientes precisa de presença. A discrição, prezada em outras escolas de perfumaria, aqui cede lugar à generosidade.

Também muda a relação com o corpo. Os óleos concentrados, os attars, eram aplicados em gotas, sem álcool, e muitos ainda são. O frasco com borrifador, dominante no Ocidente, chegou depois e se misturou à tradição sem apagá-la.

Oud e incenso: de matéria-prima rara a assinatura

Se existe um cheiro que resume a perfumaria da região, é o oud. A matéria-prima nasce de um acidente biológico: quando árvores do gênero Aquilaria, nativas do Sul e do Sudeste da Ásia, são atacadas por fungos, produzem uma resina escura como defesa. A madeira impregnada, chamada também de agarwood, é queimada como incenso ou destilada em óleo.

A rota desse material é antiga e atravessa o Oceano Índico. O oud chegava aos portos da Península Arábica junto com especiarias e tecidos e se tornou símbolo de prestígio. Com o tempo, a demanda pesou sobre as florestas. Desde 2004, todas as espécies de Aquilaria constam do Anexo II da Cites, a convenção internacional que regula o comércio de espécies ameaçadas, o que significa que a exportação exige controle.

A escassez mudou a perfumaria moderna. Grande parte das composições que levam o nome oud hoje recria o cheiro com acordes, em vez de depender apenas do material natural. Nem por isso ele perdeu o posto de assinatura. Madeira, fumaça e um toque animal continuam sendo a marca registrada do estilo.

O incenso segue caminho parecido. O olíbano, resina de árvores do gênero Boswellia, cresce em regiões do sul da Península Arábica e do Chifre da África, e foi durante séculos uma das mercadorias mais disputadas das rotas comerciais. A mesma fumaça que perfumava templos na Antiguidade continua presente nos incensários domésticos e em composições atuais.

Rosa, jasmim e flor de laranjeira: as flores do Sabah Al Ward

Ao lado do oud, a rosa ocupa o outro polo da tradição. A mais célebre é a rosa de Taif, cultivada nas montanhas do Hejaz, no oeste da Arábia Saudita. A colheita é curta, concentrada na primavera.

O trabalho que vem depois é quase artesanal. As pétalas seguem para alambiques de cobre, onde se obtêm água de rosas e óleo essencial. São necessárias milhares de flores para poucos gramas de óleo. Um festival anual celebra a colheita na cidade.

Muita flor para pouquíssimo óleo. Daí o prestígio.

A rosa, porém, não é a única flor dessa tradição, e é justamente aí que entra o Sabah Al Ward. Apesar do nome, que evoca a rosa (em árabe, “ward”), o perfume não leva rosa na fórmula. As flores dele são outras duas velhas conhecidas da perfumaria da região: o jasmim sambac, que o comércio batizou de jasmim-da-arábia embora a planta seja nativa do sul da Ásia, e a flor de laranjeira. A composição abre com pimenta-rosa e laranja-mandarina, passa por essas flores e por um toque de cacau e assenta em baunilha, fava tonka e patchouli.

O resultado é um frutado doce com acento floral, bem diferente de uma rosa clássica. E essa distância entre nome e conteúdo é reveladora. A perfumaria árabe atual preserva o vocabulário da tradição, com rosas, jasmim e madeiras, mas o combina com a doçura gourmand que ganhou o mundo nas últimas décadas: uma fragrância que lembra notas de sobremesa e ao mesmo tempo carrega no rótulo uma saudação de avó.

Serve ainda para mostrar como as casas da região dão nome aos seus perfumes. Em vez de códigos ou sobrenomes, aparecem expressões do dia a dia, palavras de poesia, referências a lugares e horários. O Sabah Al Ward é um bom exemplo dessa escolha, que transforma o frasco numa pequena peça de linguagem.

Do Oriente Médio às prateleiras brasileiras

A chegada desses perfumes ao Brasil seguiu o caminho do comércio global. Dubai, que se firmou como polo de distribuição entre Ásia, Europa e África, concentra boa parte das empresas do setor, e foi de lá que muitos frascos partiram para lojas e revendedores brasileiros.

O interesse local cresceu pelas redes sociais, com resenhas em vídeo e comparações entre fragrâncias. Mas o fenômeno também tem raiz cultural. O Brasil abriga uma das maiores comunidades de origem árabe fora do Oriente Médio, formada sobretudo por descendentes de sírios e libaneses, e hábitos como o uso de água de rosas na cozinha e de incenso em casa já eram familiares em muitas famílias.

Há, porém, uma diferença de contexto. No clima quente e úmido do Rio, composições feitas para noites secas do deserto se comportam de outro modo, e parte do público aprende na prática a dosar. Muita gente descobre, depois de um ou dois exageros, que duas borrifadas bastam.

Para quem quer ir além da curiosidade e conhecer as famílias, as casas e o vocabulário dessa perfumaria, guias editoriais ajudam a organizar o assunto. Um ponto de partida é a seleção comentada da Perfume Árabe, que reúne fragrâncias por perfil e explica o critério de cada escolha.

No fim, a tradição sobrevive nos detalhes. Um nome que repete um bom-dia, uma madeira que só existe por causa de um fungo, uma rosa colhida antes do sol. Cada frasco guarda um pedaço dessa história, mesmo quando viaja milhares de quilômetros até uma penteadeira carioca.

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